Agora estou aqui:
http://oblogdoantihomem.blogspot.com/
18/11/09
05/06/09
O Homem-Toca-Corneta
O Homem-Toca-Corneta tem o costumeiro hábito de se colocar à sua janela do rés-do-chão e tocar a corneta tão alto quanto pode, dir-se-ia mesmo gritar corneta ou até berrar corneta. E muito chocados ficam os cidadãos que habitam naquela pacata vila mas ele toca toca toca e toca até que a vizinha da frente sai de casa, aproxima-se da janela do Homem-Toca-Corneta e enfia a sua mão pela campana da corneta para que possa alimentar o homem, pois a sua mão vem carregada com os restos das refeições caseiras. Desta forma, a vizinha penetra a mão cheia de comida com tal vigor que fura pela corneta dentro até entrar na boca do Homem-Toca-Corneta. Este, por sua vez, mastiga a comida e engole-a. Depois, o Homem-Toca-Corneta fica satisfeito, pára de tocar, fecha a janela, recolhe-se em casa e a vizinha regressa para a sua casa.
03/04/09
A reunião da administração
Entra o Administrador na sala de reuniões e, virando-se de feições frontais para o Presidente diz-lhe Digo-lhe Senhor Presidente que estou com demasiado sono para assistir a esta reunião, ao que lhe responde o Presidente Ora Senhor Administrador, então porque me disse que vinha? ao que lhe responde o Administrador Porque sim, porque achei que fosse melhor ao que afirma o Presidente A fabricação de pessoas é efectuada no interior de um elevador da baixa da cidade o que faz o Administrador soltar as palavras E é isso que me quer dizer, Senhor Presidente? Fez-me vir até à sede da empresa para me falar sobre a fabricação das pessoas? Você é um idiota, caro presidente! que originam E você, Senhor Administrador, é um parvalhão! E quando você me diz que os papeis que trago são desnecessários porque estão mal organizados? E atreve-se você a chamar-me idiota? afirmando seguidamente o Administrador Quero dormir! Quero dormir e só vejo papéis da reunião da administração e apetece-me escrever apenas a letra A, apetece-me escrever cem As uns após os outros AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA.
Entra o Contabilista que trás uns papéis na mão, aliás, são mais do que uns papéis, são papéis, dossiers e várias outras coisas algumas delas sem uso absolutamente nenhum, tal como uma esferográfica sem tinta e que é utilizada para escrever. O Contabilista senta-se no seu lugar à mesa e coloca a sua máscara de cabeça de galo declarando com firmeza EU SOU O CONTABILISTA! EU SOU O CONTABILISTA!
Inicia-se a reunião sendo o Presidente a dar essa ordem Vamos ao primeiro ponto da reunião: a tecla da letra O e a tecla da letra K dos nossos teclados QWERTY. Fizeram-me chegar bastantes queixas sobre o facto do posicionamento das referidas teclas não ser a mais aconselhável, já que quando escrevemos OK, a proximidade e o posicionamento dessas duas teclas origina uma cópula entre si. Calem-se todos apesar de estarem calados e sem emitir um único som mas calem-se calem-se e calem-se pois se não se calam não poderei discursar nem debater os pontos da reunião mas agora apetece-me discursar e não falar nos pontos da reunião porque se o fizer não poderei discursar e por isso não direi uma palavra excepto aquelas que guardarei para o discurso que efectuarei já a seguir a ter terminado esta frase que me parece não mais acabar porque me apetece prolongar esta frase da forma mais interminável possível e até sem utilizar sinais de pontuação como vírgulas ou pontos ou pontos e vírgulas Oh Senhor Presidente cale-se e comece a debater os pontos da reunião já que foi para isso que cá vim e não se esqueça que estou com muito sono EU SOU O CONTABILISTA EU SOU O CONTABILISTA.
Dizendo o Presidente Meus senhores, tenho uma declaração a fazer-lhes: hoje de manhã abri o meu frigorífico e de lá tirei um ovo que coloquei no chão e, em seguida, com o martelo, parti-lhe a casca com todas as minhas forças uma exposição de um acontecimento que abre motivo para que o Administrador declare Eu declaro que hoje de manhã dobrei o meu dedo indicador em direcção às costas da mão de forma a que a dor que daí advinha se tornasse insuportável. Pensei até em deslocar a articulação mas optei por não o fazer porque se assim fosse teria que perder algum tempo no hospital para me recolocarem a articulação no devido lugar o que me faria atrasar para esta reunião não faltando a do Contabilista Eu declaro que esta frase é arte. Eu declaro que esta frase não é arte.
É o momento de debater o segundo ponto da reunião antecipando-se novamente o Presidente em relação aos restantes convivas Vamos ao segundo ponto da reunião: o vinhateiro da vinha, homem de rude força, transporta vasos nas mãos (um em cada um) bateu à porta do Taberneiro ou do Homem da Taberna como também é chamado para que este seja avisado que estão as uvas prontas para serem e depois no andar de cima estava o vizinho que lhe disse vai comprar o vinho que já está pronto E vou onde? vai ali ao Homem da Taberna que lá há E quem lá mora? tu sabes quem lá mora por cima do Taberneiro, lá está a vizinha sempre com as suas batatas Porque dizes sempre com as suas batatas? porque não está com as cebolas viste-o ontem, o da vinha, o da rude força? contrapondo o Administrador com um avassalador Cabe-me referir, Senhor Presidente, que tudo o que acabou de dizer transporta em si o mais completo dos erros porque houve vários meios de transporte que fizeram uma curva. Seja como for, Senhor Presidente, tendo em atenção o que por si foi exposto, eu passo a palavra ao contabilista.
De posse do alguidar, o Contabilista coloca-o na sua cabeça como se de um elmo se tratasse. O presidente grita Inimigo à vista! Inimigo à vista! berreiro suficiente para que o Administrador se pusesse em fuga escondendo-se por trás da sua cadeira. Deixando-se estar oculto pela cadeira dá plena utilização à quantidade de sono que consigo transporta. O peso do crânio dobra-lhe perpendicularmente o pescoço em direcção ao solo enquanto a força gravítica tomba-lhe as pálpebras para baixo. De súbito solta-se o primeiro som respiratório que anuncia a chegada da dormida. Há uma coisa que gosto de fazer. Quando estou numa fila de trânsito numa auto-estrada gosto de apontar directamente com o dedo indicador da mão direita para os condutores dos outros carros que também estão nessa mesma fila. Fazer isso leva-me a atingir um estado de plenitude em êxtase. E também gosto que não apontem na minha direcção, que o outro condutor não aponte na minha direcção porque isso tornar-se-ia desagradável ver dois homens adultos a apontar um para o outro como quem aponta para alguma coisa como fazem as crianças e as crianças quando estão entre si às vezes a brincar mas principalmente quando querem que um adulto e talvez uma criança olhe e observe uma qualquer coisa que a primeira criança viu e achou piada ou estranho em outra pessoa. Estranho é também o alguidar que o Contabilista transporta na sua cabeça e que faz com q. Torna-se discreto quando o apontar para o condutor do lado, isto é, talvez seja isso mas se não, houve alturas em que pensei quais as compras que iria fazer no supermercado, nem eu sabia ou talvez também ouvi que sim, acho que sim que é isso. A lista de compras do supermercado e reparei que me tinha esquecido de lá colocar o alguidar e escrevi-o no fim da lista como se de um capítulo final se se tratasse.
Entra o Contabilista que trás uns papéis na mão, aliás, são mais do que uns papéis, são papéis, dossiers e várias outras coisas algumas delas sem uso absolutamente nenhum, tal como uma esferográfica sem tinta e que é utilizada para escrever. O Contabilista senta-se no seu lugar à mesa e coloca a sua máscara de cabeça de galo declarando com firmeza EU SOU O CONTABILISTA! EU SOU O CONTABILISTA!
Inicia-se a reunião sendo o Presidente a dar essa ordem Vamos ao primeiro ponto da reunião: a tecla da letra O e a tecla da letra K dos nossos teclados QWERTY. Fizeram-me chegar bastantes queixas sobre o facto do posicionamento das referidas teclas não ser a mais aconselhável, já que quando escrevemos OK, a proximidade e o posicionamento dessas duas teclas origina uma cópula entre si. Calem-se todos apesar de estarem calados e sem emitir um único som mas calem-se calem-se e calem-se pois se não se calam não poderei discursar nem debater os pontos da reunião mas agora apetece-me discursar e não falar nos pontos da reunião porque se o fizer não poderei discursar e por isso não direi uma palavra excepto aquelas que guardarei para o discurso que efectuarei já a seguir a ter terminado esta frase que me parece não mais acabar porque me apetece prolongar esta frase da forma mais interminável possível e até sem utilizar sinais de pontuação como vírgulas ou pontos ou pontos e vírgulas Oh Senhor Presidente cale-se e comece a debater os pontos da reunião já que foi para isso que cá vim e não se esqueça que estou com muito sono EU SOU O CONTABILISTA EU SOU O CONTABILISTA.
Dizendo o Presidente Meus senhores, tenho uma declaração a fazer-lhes: hoje de manhã abri o meu frigorífico e de lá tirei um ovo que coloquei no chão e, em seguida, com o martelo, parti-lhe a casca com todas as minhas forças uma exposição de um acontecimento que abre motivo para que o Administrador declare Eu declaro que hoje de manhã dobrei o meu dedo indicador em direcção às costas da mão de forma a que a dor que daí advinha se tornasse insuportável. Pensei até em deslocar a articulação mas optei por não o fazer porque se assim fosse teria que perder algum tempo no hospital para me recolocarem a articulação no devido lugar o que me faria atrasar para esta reunião não faltando a do Contabilista Eu declaro que esta frase é arte. Eu declaro que esta frase não é arte.
É o momento de debater o segundo ponto da reunião antecipando-se novamente o Presidente em relação aos restantes convivas Vamos ao segundo ponto da reunião: o vinhateiro da vinha, homem de rude força, transporta vasos nas mãos (um em cada um) bateu à porta do Taberneiro ou do Homem da Taberna como também é chamado para que este seja avisado que estão as uvas prontas para serem e depois no andar de cima estava o vizinho que lhe disse vai comprar o vinho que já está pronto E vou onde? vai ali ao Homem da Taberna que lá há E quem lá mora? tu sabes quem lá mora por cima do Taberneiro, lá está a vizinha sempre com as suas batatas Porque dizes sempre com as suas batatas? porque não está com as cebolas viste-o ontem, o da vinha, o da rude força? contrapondo o Administrador com um avassalador Cabe-me referir, Senhor Presidente, que tudo o que acabou de dizer transporta em si o mais completo dos erros porque houve vários meios de transporte que fizeram uma curva. Seja como for, Senhor Presidente, tendo em atenção o que por si foi exposto, eu passo a palavra ao contabilista.
De posse do alguidar, o Contabilista coloca-o na sua cabeça como se de um elmo se tratasse. O presidente grita Inimigo à vista! Inimigo à vista! berreiro suficiente para que o Administrador se pusesse em fuga escondendo-se por trás da sua cadeira. Deixando-se estar oculto pela cadeira dá plena utilização à quantidade de sono que consigo transporta. O peso do crânio dobra-lhe perpendicularmente o pescoço em direcção ao solo enquanto a força gravítica tomba-lhe as pálpebras para baixo. De súbito solta-se o primeiro som respiratório que anuncia a chegada da dormida. Há uma coisa que gosto de fazer. Quando estou numa fila de trânsito numa auto-estrada gosto de apontar directamente com o dedo indicador da mão direita para os condutores dos outros carros que também estão nessa mesma fila. Fazer isso leva-me a atingir um estado de plenitude em êxtase. E também gosto que não apontem na minha direcção, que o outro condutor não aponte na minha direcção porque isso tornar-se-ia desagradável ver dois homens adultos a apontar um para o outro como quem aponta para alguma coisa como fazem as crianças e as crianças quando estão entre si às vezes a brincar mas principalmente quando querem que um adulto e talvez uma criança olhe e observe uma qualquer coisa que a primeira criança viu e achou piada ou estranho em outra pessoa. Estranho é também o alguidar que o Contabilista transporta na sua cabeça e que faz com q. Torna-se discreto quando o apontar para o condutor do lado, isto é, talvez seja isso mas se não, houve alturas em que pensei quais as compras que iria fazer no supermercado, nem eu sabia ou talvez também ouvi que sim, acho que sim que é isso. A lista de compras do supermercado e reparei que me tinha esquecido de lá colocar o alguidar e escrevi-o no fim da lista como se de um capítulo final se se tratasse.
A exclusão de esquinas
O restaurante fica na esquina que dá para o rio sendo esta a única esquina em todo o aglomerado populacional com visibilidade para o fluxo aquático porque, segundo uma lei publicada num dos transactos anos, transacto esse correspondendo a um transacto antigo de séculos, não é permitida a construção de esquinas ou de qualquer outra espécie de edifício nas proximidades do percurso fluvial, dado que era costumeiro nessa área de beira-rio, em tempo prévio à publicação da dita lei, haver coexistência entre assaltantes e assaltados movimentando-se os assaltantes através de oscilações parcial ou totalmente ocultas pelas esquinas e outros edifícios. Com tão normal situação a de roubo por extorsão ou de outra qualidade criminal de proporções diferentes, foi ordenada a demolição de todas as esquinas e restantes edifícios das proximidades do rio, tornando-se também proibitiva qualquer construção edifical na área em questão. Escusado será narrar que os criminosos executaram uma pequena migração de maneira a que pudessem continuar o exercício da sua actividade remuneratória, transferindo os seus serviços para não muito longe da zona demolida. Dado que os criminosos levam a efeito o seu desempenho numa determinada área da localidade, esse território viu-se forçado a renovar os nomes das ruas. Temos então a Rua do Crime Monetário, a Rua dos Serial Killers, a Rua da Corrupção, a Rua dos Assassinos ou a Rua dos Assaltantes a Estabelecimentos Comerciais, nomeando apenas algumas delas. Na prática, isto quer dizer que se um transeunte desejar ter o seu porta-moedas livrado de peso excessivo, deverá permitir-se trespassar a Rua do Crime Monetário, já que é lá que se reúnem os especializados no roubo de bens sob a forma de notas e moedas. Se for desejo de um qualquer cidadão organizar um assalto a um estabelecimento comercial (do próprio ou da concorrência) basta que se dirija à Rua dos Assaltantes a Estabelecimentos Comerciais, tendo em conta que é lá que têm sede os vários grupos dedicados a este tipo de crime. Para quem deseje ser assassinado necessita apenas de rumar à Rua dos Assassinos e aí escolher um assassino que lhe agrade. Porém, se esse mesmo desejoso de se assassinar a si próprio preferir o serviço executado por um serial killer terá que se dirigir à Rua dos Serial Killers. Para os aliciados em crimes de corrupção bastará apenas que se coloque na Rua da Corrupção, sendo lá a sede de diversas organizações ou particulares dedicados a este tipo de crime.
Meios de transporte que fizeram uma curva
Era uma embarcação de rio que fazia uma curva em 3000 a.C. E assim começa a história do menino que fazia uma curva a tudo quanto podia ser curvado. Contava-se naquele aglomerado populacional que morava por lá um menino que andava sempre às curvas e que era incapaz de fazer um trajecto em linha recta, mesmo quando o percurso a isso pedia. Ouvido isto, vários sacerdotes rumaram a esse aglomerado populacional. Era uma carroça que fazia uma curva em 1490. E assim começa a história do menino que fazia uma curva a tudo quanto podia ser curvado. Contava-se naquela cidade que morava por lá um menino que andava sempre às curvas e que era incapaz de fazer um trajecto em linha recta, mesmo quando o percurso a isso pedia. Ouvido isto, vários homens do Renascimento rumaram a essa cidade. Era um balão que fazia uma curva em 1782. E assim começa a história do menino que fazia uma curva a tudo quanto podia ser curvado. Era um comboio a vapor que fazia uma curva em 1860. E assim começa a história do menino que fazia uma curva a tudo quanto podia ser curvado. Era um automóvel de combustão interna que fazia uma curva em 1890. E assim começa a história do menino que fazia uma curva a tudo quanto podia ser curvado. Era um avião com propulsão a hélice que fazia uma curva em 1905. E assim começa a história do menino que fazia uma curva a tudo quanto podia ser curvado. Era um comboio eléctrico que fazia uma curva em 1920. E assim começa a história do menino que fazia uma curva a tudo quanto podia ser curvado. Era um dirigível que fazia uma curva em 1930. E assim começa a história do menino que fazia uma curva a tudo quanto podia ser curvado. Era um avião a jacto que fazia uma curva em 1950. E assim começa a história do menino que fazia uma curva a tudo quanto podia ser curvado. Era um submarino que fazia uma curva em 1952. E assim começa a história do menino que fazia uma curva a tudo quanto podia ser curvado. Era um foguetão que fazia uma curva em 1976. E assim começa a história do menino que fazia uma curva a tudo quanto podia ser curvado. Era um space shuttle que fazia uma curva em 1982. E assim começa a história do menino que fazia uma curva a tudo quanto podia ser curvado. Lá na cidade contavam que andava sempre às curvas e que era incapaz de fazer uma recta. Mal saía de casa a primeira coisa que fazia era curvar para a direita apesar de o percurso que liga a entrada do seu lar até ao elevador ser constituído por uma recta e devido a esse mesmo caminho rectilíneo, o menino via-se constantemente obrigado a embater na parede servindo esta de ponto de apoio para a execução da sua próxima curva, desta vez para a esquerda, colidindo com a parede do lado oposto e de novo nova curva para a direita e outra para a esquerda até dar entrada no elevador, ligando este meio de transporte, através de uma recta, ao exterior do seu prédio. Já lá fora, o menino continuava às curvas, para a esquerda, para a direita, para a esquerda, para a direita. As curvas que o menino faz não são sempre iguais, são umas de ângulo mais fechado do que outras dependendo da superfície em que embate para permitir o desenvolvimento do percurso andante (tais como paredes, muros, árvores, candeeiros, pessoas, etc). Ouvido isto, vários investigadores de diversas áreas do conhecimento rumaram de imediato a essa localidade tendo como objectivo o estudo desse menino. Eram tantos que se tornaram em maior número do que os habitantes da cidade. Preparou-se uma sala especial de enormes proporções para este evento e completou-se esse lugar com cadeiras, uma quantidade imensa de cadeiras. Conversa-se e teoriza-se entre os investigadores. Uns dizem que é com toda a certeza por causa disto que o menino faz curvas, outras dizem com toda a certeza que é por causa daquilo e outros ainda dizem que é. Do canto da sala levanta-se uma voz que sonoramente se exala a partir de um homem muito velho e que diz Eu concluo que o menino faz curvas porque está impossibilitado de fazer rectas. E todos ficaram boquiabertos com tão aparatosa explicação. Todos os investigadores se levantam das cadeiras em que se sentam e começam a deambular às curvas, todos a colidir com tudo e todos a colidir uns com os outros. Todos curvam os seus percursos. Tenta-se com isto experienciar a deslocação espacial do menino que faz curvas. Durante exactamente uma hora milhares de cientistas curvam. Pensa-se que a Teoria da Deriva não é aplicável num caso destes.
27/03/09
O menino colecciona borbulhas
O menino colecciona borbulhas desde a mais tenra idade. Não que ele tenha largado para longe a idade em que a infância é mais tenra, apenas assim informei para que se tome conhecimento que desde há já um certo número de anos, a criança a que se faz alusão faz um ajuntamento obsessivo dos objectos atrás indicados.
Uma das assoalhadas da sua casa é inteiramente dedicada à colecção. Em todas as suas quatro paredes há estantes que se elevam até ao tecto com mais prateleiras do que aquelas que seria de supor, nas quais se comprimem milhares de pequenas caixas de plástico que contêm, cada uma, uma borbulha. Essas borbulhas arranca-as com as suas unhas o menino a ele próprio ou a outras pessoas e são colhidas na fase em que se tornam de maior tamanho. Sabendo já, por via da experiência adquirida, que tamanho é esse, o menino limita-se a esperar que cresça até ao momento de lhe espetar as unhas e juntá-la à colecção.
No bairro onde vive o menino habita um grupo de outros meninos que inveja a vastíssima colecção do seu colega colector de borbulhas. Colega porque também este grupo, que actua em conjunto e não de forma isolada como o menino, se dedica à extracção de borbulhas humanas, mas de maneira alguma a colecção do grupo se compara à do menino, é de uma pequenez absoluta quando a ela comparada. Ora, o grupo de meninos também anseia por uma vasta colecção mas de maneira menos complexa. O roubo pareceu-lhes uma boa solução. Precavendo-se contra monstruosidades provindas de larápios de passagem ou dos outros, o menino que colecciona borbulhas construiu um sistema de auto-defesa de capacidades supremas e devastadoras. Aproximava-se o grupo de meninos intentando o furto e soltava-se, de algum lugar, uma gigantesca borbulha de fabricação artificial que se destinava a aniquilar qualquer gatuno que a distâncias perigosamente próximas se aproximasse. O grupo de meninos foi atingido pela borbulha gigante deixando-os num estado lastimoso e a requerer cuidados médicos.
A borbulha gigante foi encomendada pelo menino que colecciona borbulhas ao seu tio, ele próprio um outro coleccionador de borbulhas, mas de quantidades substancialmente menores que o sobrinho. O tio é o dono da fábrica onde se produzem borbulhas artificiais que são um grande sucesso de mercado, já que cada ser vivente poderá padecer voluntariamente de uma ou de mais borbulhas em uma ou em várias partes do corpo. E as borbulhas agradam e satisfazem vários gostos e necessidades, umas são maiores e outras menores, umas mais inchadas e outras menos, umas em tons mais vermelhos outras nem tanto. É possível exibirmos borbulhas em nós próprios exactamente como queremos que elas se apresentem.
Uma das assoalhadas da sua casa é inteiramente dedicada à colecção. Em todas as suas quatro paredes há estantes que se elevam até ao tecto com mais prateleiras do que aquelas que seria de supor, nas quais se comprimem milhares de pequenas caixas de plástico que contêm, cada uma, uma borbulha. Essas borbulhas arranca-as com as suas unhas o menino a ele próprio ou a outras pessoas e são colhidas na fase em que se tornam de maior tamanho. Sabendo já, por via da experiência adquirida, que tamanho é esse, o menino limita-se a esperar que cresça até ao momento de lhe espetar as unhas e juntá-la à colecção.
No bairro onde vive o menino habita um grupo de outros meninos que inveja a vastíssima colecção do seu colega colector de borbulhas. Colega porque também este grupo, que actua em conjunto e não de forma isolada como o menino, se dedica à extracção de borbulhas humanas, mas de maneira alguma a colecção do grupo se compara à do menino, é de uma pequenez absoluta quando a ela comparada. Ora, o grupo de meninos também anseia por uma vasta colecção mas de maneira menos complexa. O roubo pareceu-lhes uma boa solução. Precavendo-se contra monstruosidades provindas de larápios de passagem ou dos outros, o menino que colecciona borbulhas construiu um sistema de auto-defesa de capacidades supremas e devastadoras. Aproximava-se o grupo de meninos intentando o furto e soltava-se, de algum lugar, uma gigantesca borbulha de fabricação artificial que se destinava a aniquilar qualquer gatuno que a distâncias perigosamente próximas se aproximasse. O grupo de meninos foi atingido pela borbulha gigante deixando-os num estado lastimoso e a requerer cuidados médicos.
A borbulha gigante foi encomendada pelo menino que colecciona borbulhas ao seu tio, ele próprio um outro coleccionador de borbulhas, mas de quantidades substancialmente menores que o sobrinho. O tio é o dono da fábrica onde se produzem borbulhas artificiais que são um grande sucesso de mercado, já que cada ser vivente poderá padecer voluntariamente de uma ou de mais borbulhas em uma ou em várias partes do corpo. E as borbulhas agradam e satisfazem vários gostos e necessidades, umas são maiores e outras menores, umas mais inchadas e outras menos, umas em tons mais vermelhos outras nem tanto. É possível exibirmos borbulhas em nós próprios exactamente como queremos que elas se apresentem.
Gervásio
Gervásio gosta de cheirar cebola. Dispõe ele em sua casa de um armário exclusivamente usado para dar guarida às excelsas quantidades de cebola que são propriedade sua. No interior desse móvel da altura de uma porta e da largura das que couberem numa parede, amontoam-se em situação cuidada as cebolas quase prontas a serem cheiradas. Quase prontas e não simplesmente prontas porque o quase indica estar-se diante da necessidade de se ultrapassar um determinado estágio para que sejam encontradas no ponto descrito por prontidão. Objectivando transpor a fasquia que divide o pré-pronta do pronta, Gervásio possui um sempre afiado instrumento de corte que o vulgo das pessoas denomina de faca de cozinha, posicionado num local especial à mão de semear num compartimento do armário em questão. Vamos então acompanhar uns momentos da vida de Gervásio.
Antes de se fazer alimentar do pequeno-almoço e pouco depois de se libertar do sono nocturno, Gervásio lança uma mão de uma cebola e com a outra apodera-se da faca posicionada de maneira a que o investimento de tempo usado para fazer o gesto de aproximar o membro superior do instrumento laminal seja o mais diligente de modo a que seja satisfeita a ânsia de que Gervásio padece em sentir o aromático aroma da cebola. Assim, da cebola corta-lhe metade que é imediatamente penetrada pela totalidade do nariz de Gervásio e através de uma profundíssima e longa inspiração faz evoluir o maná que se esconde no interior da cebola em direcção às suas fossas nasais que, posteriormente, se direccionam ao cérebro. Com a inspiração Gervásio toca um estado de êxtase após o qual novas e repetidas inspirações são executadas até ser extraída a totalidade odorífica que persistia no interior da cebola, cuja metade, agora despida de cheiro, é deliberadamente lançada para o lixo. A segunda metade, já pronta a ser cheirada, é guardada num dos bolsos que a sua roupa contém para que, logo que lhe sinta a necessidade, ser sentida através do cheirar. Apesar de já se fazer transportador de meia cebola, o armazenamento de cebola só se finda por completo quando mais umas duas ou três cebolas sejam bem-vindas na lancheira que serve também para albergar o almoço que Gervásio degustará quando a isso o permita a hora do seu emprego, isto porque uma cebola não lhe é suficiente para as suas solicitudes diárias.
E assim, de meia em meia cebola, se vai desenrolando o dia de Gervásio.
Antes de se fazer alimentar do pequeno-almoço e pouco depois de se libertar do sono nocturno, Gervásio lança uma mão de uma cebola e com a outra apodera-se da faca posicionada de maneira a que o investimento de tempo usado para fazer o gesto de aproximar o membro superior do instrumento laminal seja o mais diligente de modo a que seja satisfeita a ânsia de que Gervásio padece em sentir o aromático aroma da cebola. Assim, da cebola corta-lhe metade que é imediatamente penetrada pela totalidade do nariz de Gervásio e através de uma profundíssima e longa inspiração faz evoluir o maná que se esconde no interior da cebola em direcção às suas fossas nasais que, posteriormente, se direccionam ao cérebro. Com a inspiração Gervásio toca um estado de êxtase após o qual novas e repetidas inspirações são executadas até ser extraída a totalidade odorífica que persistia no interior da cebola, cuja metade, agora despida de cheiro, é deliberadamente lançada para o lixo. A segunda metade, já pronta a ser cheirada, é guardada num dos bolsos que a sua roupa contém para que, logo que lhe sinta a necessidade, ser sentida através do cheirar. Apesar de já se fazer transportador de meia cebola, o armazenamento de cebola só se finda por completo quando mais umas duas ou três cebolas sejam bem-vindas na lancheira que serve também para albergar o almoço que Gervásio degustará quando a isso o permita a hora do seu emprego, isto porque uma cebola não lhe é suficiente para as suas solicitudes diárias.
E assim, de meia em meia cebola, se vai desenrolando o dia de Gervásio.
O Instituto das Pessoas que estão à Espera
Sirvo-me da posição designada por sentada enquanto usufruo da espera que me foi concedida nas instalações do Instituto das Pessoas que estão à Espera onde, na sala de espera do dito estabelecimento se atulham outras pessoas em actividade de espera. Algumas observam o ticket numerado que colheram no mecanismo distribuidor de tickets numerados que é visível logo após a entrada no instituto. Para se estar à espera é necessário retirar um deles, caso contrário não há qualquer possibilidade de estar em espera. Portanto, qualquer ser vivo de aspecto humano que se sinta na necessidade de atravessar um intervalo temporal preenchido por espera vê-se na obrigação de extrair um ticket assim que se coloca no interior deste edifício. Cada um desses tickets trás impresso um número serial que indica que posição ocupa na fila de espera o cidadão que levou a efeito o acto de o retirar do mecanismo onde ele pendia na ânsia de ser levado por alguém que por ali passasse. Tendo entre mãos ou entre dedos, conforme o caso, o pedaço de papel numerado retirado do objecto que distribui a numeração serial e ordenada, o cliente que anseia por esperar deverá, de seguida, dirigir-se para a sala de espera que foi instalada ao abrigo de um dos vastos compartimentos existentes no interior do imenso edifício que é o Instituto das Pessoas que estão à Espera. Uma vez executada a rápida deslocação entre o mecanismo distribuidor de tickets e a sala de espera, quem aí chega torna-se de atenções viradas para a busca de um lugar vago onde se sentar com o intuito de se tornar a si próprio alvo de uma mais confortável posição para suportar a espera que o espera enquanto espera que o mostrador colocado no alto de uma das paredes exiba o número correspondente ao do seu ticket.
A sala de espera é possuidora de dimensões gigantescas, mede uns cem metros de comprimento por outros tantos de largura e o seu tecto está afastado do chão umas cinquenta unidades métricas. Dezenas e dezenas de filas de cadeiras percorrem a sala, estando cada uma das cadeiras colocadas lado a lado com a cadeira que se encontra a seu lado e todos os assentos estão virados para a parede frontal, oposta àquela onde foi colocada a porta de entrada para esta divisão, de modo a que quem lá se senta fique de olhos direccionados para o gigantesco mostrador que exibe o número do ticket que acabou de ser chamado. Sempre que este número se altera para o seu seguinte, respeitando a ordem crescente, faz-se ouvir por toda a sala um exacerbado sinal sonoro alertando o dono do ticket com o número correspondente que chegou a sua vez de estar à espera. A sua vez de estar à espera porque a sala de espera é apenas o local onde se aguarda que chegue a vez de se estar à espera.
Quando a pessoa é chamada transporta o precioso ticket que confirma que é a sua vez de ser atendido e desloca-se para fora da sala de espera através de uma porta edificada numa parede lateral que a faz encaminhar por um longuíssimo corredor para a sala de atendimento. Aí, a pessoa a quem o destino sorriu com a faculdade de se poder vir a encontrar em espera, ruma para junto do funcionário que ocupa a mesa que chamou o número em questão e senta-se na cadeira propositadamente colocada à mesa de cada funcionário, primeiro porque os variados funcionários dessa divisão estão também de posições sentadas e, segundo, porque se torna mais confortável para o cliente visto que é exigido que este seja questionado com um pequeno inquérito consistindo em perguntar o nome, a morada, a profissão, a razão que o faz recorrer ao Instituto das Pessoas que estão à Espera, por que razão deseja esperar e por quanto tempo deseja esperar.
O passo seguinte da demanda pela espera é dado quando o funcionário da instituição prepara um documento com os dados recolhidos do cliente e onde é prostrada uma carimbada que oficializa, juntamente com a assinatura do dito funcionário o pedido de espera por parte do cliente. Este, após entregar a devida quantia requerida pelo serviço recebe o referido documento, desune-se da cadeira em que repousava o corpo e encaminha-se para uma porta que o leva a entrar e a percorrer um amplo, luminoso e extraordinariamente longo corredor, tão extraordinário que o seu fim se perde na distância que normalmente entendemos por longe.
Após uma árdua e extenuante caminhada abrindo caminho através do desmedido corredor, o cliente, agora com o título de esperante, vê-se perante uma porta por onde penetra de modo a permitir que se mostre fisicamente diante de um outro dos milhares de funcionários que são competência do Instituto das Pessoas que estão à Espera. Sentado a uma secretária de dimensões soberbas e completa de variadas coisas e objectos, onde é francamente visível um avantajado monte de papeis que se desenvolve segundo o eixo do Y, este outro funcionário estende uma mão ao cliente pedindo-lhe a documentação que obteve na sala de atendimento. Após consulta minuciosa da mesma, entrega ao requerente uma cópia do documento e uma pequena chapa metálica com um número gravado na sua superfície. Esse é o número do compartimento cedido ao indivíduo que quer esperar.
Por uma outra porta é feita a transposição para uma enormíssima sala que alberga os compartimentos de espera. Esta sala possui dimensões tão extensas que ocupa uma grande parte do já de si enorme edifício do Instituto das Pessoas que estão à Espera. Ao entrar nesta sala um dos funcionários aí presentes pede que lhe seja entregue a cópia do documento e a chapa metálica. São estes os funcionários encarregados de zelar pela boa espera de cada um dos clientes. São eles que os encaminham até ao compartimento que lhe foi cedido.
A sala que alberga os compartimentos de espera é idealizada segundo centenas e centenas de corredores que serpenteiam pelo seu interior nos seus vários andares de altura. Cada um desses corredores tem as suas paredes laterais cobertas por portas que encerram os compartimentos de espera, o local onde o esperante é encerrado enquanto fica à espera. Cada compartimento pouco maior é do que uma pessoa e possui uma cama de solteiro e uma casa de banho, nada mais. As refeições diárias são trazidas e entregues em mão ao esperante por um funcionário.
O esperante é guiado para o compartimento que lhe é emprestado e após o decorrer da totalidade de tempo que o cliente deseja estar em espera, um dos funcionários é encarregue de o guiar para fora do compartimento de espera, para fora da sala dos compartimentos de espera e para fora do edifício do Instituto das Pessoas que estão à Espera.
A sala de espera é possuidora de dimensões gigantescas, mede uns cem metros de comprimento por outros tantos de largura e o seu tecto está afastado do chão umas cinquenta unidades métricas. Dezenas e dezenas de filas de cadeiras percorrem a sala, estando cada uma das cadeiras colocadas lado a lado com a cadeira que se encontra a seu lado e todos os assentos estão virados para a parede frontal, oposta àquela onde foi colocada a porta de entrada para esta divisão, de modo a que quem lá se senta fique de olhos direccionados para o gigantesco mostrador que exibe o número do ticket que acabou de ser chamado. Sempre que este número se altera para o seu seguinte, respeitando a ordem crescente, faz-se ouvir por toda a sala um exacerbado sinal sonoro alertando o dono do ticket com o número correspondente que chegou a sua vez de estar à espera. A sua vez de estar à espera porque a sala de espera é apenas o local onde se aguarda que chegue a vez de se estar à espera.
Quando a pessoa é chamada transporta o precioso ticket que confirma que é a sua vez de ser atendido e desloca-se para fora da sala de espera através de uma porta edificada numa parede lateral que a faz encaminhar por um longuíssimo corredor para a sala de atendimento. Aí, a pessoa a quem o destino sorriu com a faculdade de se poder vir a encontrar em espera, ruma para junto do funcionário que ocupa a mesa que chamou o número em questão e senta-se na cadeira propositadamente colocada à mesa de cada funcionário, primeiro porque os variados funcionários dessa divisão estão também de posições sentadas e, segundo, porque se torna mais confortável para o cliente visto que é exigido que este seja questionado com um pequeno inquérito consistindo em perguntar o nome, a morada, a profissão, a razão que o faz recorrer ao Instituto das Pessoas que estão à Espera, por que razão deseja esperar e por quanto tempo deseja esperar.
O passo seguinte da demanda pela espera é dado quando o funcionário da instituição prepara um documento com os dados recolhidos do cliente e onde é prostrada uma carimbada que oficializa, juntamente com a assinatura do dito funcionário o pedido de espera por parte do cliente. Este, após entregar a devida quantia requerida pelo serviço recebe o referido documento, desune-se da cadeira em que repousava o corpo e encaminha-se para uma porta que o leva a entrar e a percorrer um amplo, luminoso e extraordinariamente longo corredor, tão extraordinário que o seu fim se perde na distância que normalmente entendemos por longe.
Após uma árdua e extenuante caminhada abrindo caminho através do desmedido corredor, o cliente, agora com o título de esperante, vê-se perante uma porta por onde penetra de modo a permitir que se mostre fisicamente diante de um outro dos milhares de funcionários que são competência do Instituto das Pessoas que estão à Espera. Sentado a uma secretária de dimensões soberbas e completa de variadas coisas e objectos, onde é francamente visível um avantajado monte de papeis que se desenvolve segundo o eixo do Y, este outro funcionário estende uma mão ao cliente pedindo-lhe a documentação que obteve na sala de atendimento. Após consulta minuciosa da mesma, entrega ao requerente uma cópia do documento e uma pequena chapa metálica com um número gravado na sua superfície. Esse é o número do compartimento cedido ao indivíduo que quer esperar.
Por uma outra porta é feita a transposição para uma enormíssima sala que alberga os compartimentos de espera. Esta sala possui dimensões tão extensas que ocupa uma grande parte do já de si enorme edifício do Instituto das Pessoas que estão à Espera. Ao entrar nesta sala um dos funcionários aí presentes pede que lhe seja entregue a cópia do documento e a chapa metálica. São estes os funcionários encarregados de zelar pela boa espera de cada um dos clientes. São eles que os encaminham até ao compartimento que lhe foi cedido.
A sala que alberga os compartimentos de espera é idealizada segundo centenas e centenas de corredores que serpenteiam pelo seu interior nos seus vários andares de altura. Cada um desses corredores tem as suas paredes laterais cobertas por portas que encerram os compartimentos de espera, o local onde o esperante é encerrado enquanto fica à espera. Cada compartimento pouco maior é do que uma pessoa e possui uma cama de solteiro e uma casa de banho, nada mais. As refeições diárias são trazidas e entregues em mão ao esperante por um funcionário.
O esperante é guiado para o compartimento que lhe é emprestado e após o decorrer da totalidade de tempo que o cliente deseja estar em espera, um dos funcionários é encarregue de o guiar para fora do compartimento de espera, para fora da sala dos compartimentos de espera e para fora do edifício do Instituto das Pessoas que estão à Espera.
O Homem Que Gosta De Ver
O Homem Que Gosta De Ver é um homem que todos os dias sem excepção de nenhum transporta a sua cadeira de estimação, aquela de que tanto gosta, para a porta de entrada do seu prédio onde, no hall de apresentação e penetração do e no mesmo se coloca em posição sentada sobre o assento que tanto lhe apraz. Para aí logo de manhã ao alvorecer do dia, ele dirige-se ainda mal acordado do sono nocturno, um sono que normalmente não o descansa mas que apenas o adormece afastando-o umas horas do mundo do planeta Terra. Os restos e as sobras do sono vão-se dissipando ao longo do dia, porventura levados para longe mas não muito porque à noite está de volta ao ponto donde partira.
Virado de olhos de frente para o vidro transparente emoldurado pela porta de alumínio que barra o caminho a estranhos ao edifício, o Homem Que Gosta De Ver começa por ver as primeiras agitações e alterações provocados pelo raiar de um novo dia. Algumas pessoas, umas ensonadas outras nem tanto, convergem para os seus empregos e os primeiros autocarros pós-madrugadores guiados por motoristas melancólicos que conhecem os passageiros pelo nome e de alguns até lhes sabem as vidas. O primeiro dos seus vizinhos do prédio extrai-se do apartamento que habita livrando-se de um Bom dia vizinho, respondendo-lhe o Homem Que Gosta de Ver com um igualmente Bom dia vizinho, que raramente atinge na sua totalidade o vizinho em causa, pois este costuma desaparecer do cenário constituído pelo hall com a pressa que lhe é acelerada pelo relógio que lhe indica estar já atrasado para a hora de entrada no seu emprego, estando esta a aproximar-se velozmente numa velocidade dependente do atraso que este vizinho transporta consigo no dia em questão. Ora, este atraso não é bem um atraso. Soube o Homem Que Gosta De Ver que este vizinho, o Vizinho Bom Dia, se atrasou de forma cruel num dos dias transactos, tanto que lhe foi tirada das mãos uma importante tarefa que lhe tinha sido delegada, tendo esta sido entregue ao seu colega de escritório que ansiava por um momento desses porque é grande a rivalidade entre os dois e foi este facto mais do que suficiente para se criarem quezílias impróprias entre os dois convivas de escritório que já de si nunca foram de melhores relações. Foi facilmente notado desse dia em diante que o Vizinho Bom Dia não só iniciou o seu percurso para o emprego a uma hora anterior à do uso corrente de então, como também se faz movimentar pelo espaço de forma mais veloz, tentando desta maneira que nada mais no que diz respeito a tarefas lhe seja omitida ou retirada porque, além de não desejar ser alvo de despedimento da empresa onde exerce funções, propôs-se também a, por um lado, recuperar a sua reputação que foi abalada no interior do dito estabelecimento de rendimento financeiro e, por outro, ultrapassar e até arruinar a importância que o seu colega de escritório obteve com a tarefa que lhe pertencia de origem. É por isto que quando o Homem Que Gosta De Ver retribui o bom dia vizinho ao Vizinho Bom Dia, este último só se acha de ouvidos presentes na primeira metade da frase, sendo a segunda das metades obliterada pela acelerada saída de cena do destinatário, perdendo-se essa mesma metade num hall já vazio de pessoas a quem desejar os bons dias, excepção feita, claro, para o Homem Que Gosta De Ver, mantendo-se esse no seu posto usual e habitualmente corriqueiro de todos os dias e sem necessidade de se cumprimentar com um bom dia a si próprio.
Entre o Vizinho Bom Dia e o Vizinho Seguinte passam-se sempre longos minutos, primeiro porque a hora de entrada de ambos nos respectivos locais de trabalho é separada por um intervalo temporal apreciável e, segundo, porque o Vizinho Bom Dia faz-se percursar em direcção ao emprego muito mais cedo do que lhe convém pelas razões já enunciadas. O Vizinho Seguinte tem o costumeiro hábito de se fazer alimentar logo pela manhã por uma genial posta de peixe frito, cujo acompanhamento varia de dia para dia, indo desde cenouras ou pepinos acompanhados por rodelas de tomate, até aos donuts açucarados. Por isso, não pelos acompanhamentos mas pelo peixe ou, para ser mais rigoroso, pelo característico e forte odor deste, o vizinho em causa tresanda de aroma pisciforme, motivo repelentório para que os narizes abordados sejam reactivos enviando para o cérebro o vulgar “cheira a peixe frito”. Deste, o Homem Que Gosta de Ver quer livrar-se da maneira mais breve possível, posto que é de características fáceis seguir ou perseguir o rasto aromático largado pelo Vizinho Seguinte transportando o referido cheiro já dentro de si e permanecendo este no hall ainda depois do seu dono se haver libertado do prédio que o envolve habitacionalmente.
Ainda mal largado o cheiro piscívoro no espaço quadridimensional do hall, tomando a nota que as quatro dimensões em presença são a largura, a altura, a profundidade e o tempo, surge já, atravessando cada uma destas pela mais curta recta que une a porta de saída do elevador à porta de saída do prédio, o vizinho que se segue na ordem de aparição em público. Este, o Vizinho Ausente, passa uma boa parte das cerca de vinte e quatro horas do dia no exterior do apartamento que lhe serve de abrigo. Sai cedo pela manhã e só regressa quando a noite cerrada se fez anunciar há já largas horas. Consigo transporta sempre um dossier que serve de arquivo a mais folhas de papel do que as que deveria comportar e tantas são elas que essa mesma pasta adquiriu já um formato especial criado pela demasia excessiva da quantidade desmedida de papel albergado no seu interior.
Fazendo-se esquivar do modo mais transparente possível devido à sua extrema timidez e falta de à vontade originada pela sua insegurança quando em permanência com outros seres humanos, surge o Vizinho Tímido quase de seguida ao Vizinho Ausente. Dir-se-ia mesmo que estando um a atravessar o hall de entrada do prédio já o outro se faz abandonar do seu apartamento situado um certo número de andares acima do rés-do-chão. Calhou um dia, um dos únicos em que o Homem Que Gosta De Ver se ausentou do seu lugar, seguir o Vizinho Tímido enquanto este se movimentava pela cidade, tendo como objectivo o saber mais a seu respeito. Nessa perseguição em busca de conhecimento, descobriu o Homem Que Gosta De Ver que o Vizinho Tímido se faz mover para o local que menos completo de pessoas se apresenta e percorre sempre as ruas cujas densidades populacionais sejam as menores nem que para isso tenha que se findar por um percurso desguarnecido de sentido assinalado como prático ou rápido. É constante a sua espera pelo autocarro que se mostre menos adornado de clientes nem que permaneça longuíssimos minutos em ausência de actividade produtiva mantendo-se especado em espera pelo transporte que mais lhe agrade do ponto de vista da ausência populacional do seu interior. Por via deste seu comportamento fugidio, o Vizinho Tímido vê-se na necessidade de se extrair de sua casa muito mais cedo do que seria de calcular já que uma boa parte do tempo que o faz demorar entre o seu abrigo habitacional e o seu lugar de possessão profissional é gasto na dispersão por locais ou por autocarros pouco completos de pessoas.
Com o dia um pouco mais aberto do que estava uns minutos antes, escusando-me de comentar que a madrugada se posiciona a um maior afastamento, surge perante a vista e a audição o Vizinho Que Fala Alto. O tom normal da sua voz aproxima-se de uma envergonhada gritaria e é de salientar o virtuoso eco que se cria no interior deste paralelepípedo habitacional quando as falas ostensivamente alargantes no que respeita à intensidade sonora se soltam do mecanismo de expressão vocal que se exibe envolto pelo Vizinho Que Fala Alto. Demonstrações de convívio entre vários indivíduos da espécie humana, revelaram o notório intervalo espacial que se abre à existência entre o dito vizinho e os restantes participantes na conversa pois torna-se desnecessário a aproximação do ponto de emissão de voz quando o Vizinho Que Fala Alto é detentor da posição de emissor, partilhando assim as suas ideias com quem de canais auditivos é possuidor, estando o receptor em questão razoavelmente perto ou já afastado do emissor, entendendo-se o razoavelmente perto por uma distância que alberga uma vasta quantidade de decímetros até uns poucos de metros.
Sentindo-se na necessidade de averiguar sobre a totalidade dos vizinhos que se tornaram de morada confirmada no edifício que tenho vindo a ter como cenário, o Homem Que Gosta De Ver iniciou-se numa actividade tida por alguns como depravada já que esta é sustentada pelo analisar visual e sem ser visto das várias tarefas e acções levadas a efeito por cada um dos vizinhos quando no interior do apartamento habitacional em que lhes compete viver. Serve-se de um intrincado sistema de minúsculas câmaras colocadas inacessivelmente nos vários locais destinados à habitação que existem neste seu prédio, estando essas câmaras conectadas a uma central construída numa das assoalhadas da casa do Homem Que Gosta De Ver, permitindo-lhe observar toda e qualquer acção ou actividade que cada um dos seus vizinhos desempenha nas suas vidas diárias, nada escapando aos olhos da vigilância. Quando, ao cair da noite, o Homem Que Gosta De Ver abandona o seu lugar no hall, recolhe-se no seu apartamento para observar o rescaldo do dia dos vizinhos, já que tudo é gravado e armazenado num arquivo para posterior visionamento. O Homem Que Gosta De Ver guarda também um registo cuidadoso e preciso no qual são documentadas as actividades ou as acções que são realizadas por cada uma das pessoas que, com ele, partilha o mesmo edifício. Aí, não só se assinala o tipo de actividade como também a hora a que esta é realizada. São informações que obtém através da extensão dos seus olhos que culmina nas câmaras. Para melhorar a qualidade das observações que executa, foram distribuídos por cada um dos apartamentos vários microfones de invisibilidade quase perfeita para que se torne possível gravar e ouvir as conversas debatidas a coberto do lar de cada um dos vizinhos.
Virado de olhos de frente para o vidro transparente emoldurado pela porta de alumínio que barra o caminho a estranhos ao edifício, o Homem Que Gosta De Ver começa por ver as primeiras agitações e alterações provocados pelo raiar de um novo dia. Algumas pessoas, umas ensonadas outras nem tanto, convergem para os seus empregos e os primeiros autocarros pós-madrugadores guiados por motoristas melancólicos que conhecem os passageiros pelo nome e de alguns até lhes sabem as vidas. O primeiro dos seus vizinhos do prédio extrai-se do apartamento que habita livrando-se de um Bom dia vizinho, respondendo-lhe o Homem Que Gosta de Ver com um igualmente Bom dia vizinho, que raramente atinge na sua totalidade o vizinho em causa, pois este costuma desaparecer do cenário constituído pelo hall com a pressa que lhe é acelerada pelo relógio que lhe indica estar já atrasado para a hora de entrada no seu emprego, estando esta a aproximar-se velozmente numa velocidade dependente do atraso que este vizinho transporta consigo no dia em questão. Ora, este atraso não é bem um atraso. Soube o Homem Que Gosta De Ver que este vizinho, o Vizinho Bom Dia, se atrasou de forma cruel num dos dias transactos, tanto que lhe foi tirada das mãos uma importante tarefa que lhe tinha sido delegada, tendo esta sido entregue ao seu colega de escritório que ansiava por um momento desses porque é grande a rivalidade entre os dois e foi este facto mais do que suficiente para se criarem quezílias impróprias entre os dois convivas de escritório que já de si nunca foram de melhores relações. Foi facilmente notado desse dia em diante que o Vizinho Bom Dia não só iniciou o seu percurso para o emprego a uma hora anterior à do uso corrente de então, como também se faz movimentar pelo espaço de forma mais veloz, tentando desta maneira que nada mais no que diz respeito a tarefas lhe seja omitida ou retirada porque, além de não desejar ser alvo de despedimento da empresa onde exerce funções, propôs-se também a, por um lado, recuperar a sua reputação que foi abalada no interior do dito estabelecimento de rendimento financeiro e, por outro, ultrapassar e até arruinar a importância que o seu colega de escritório obteve com a tarefa que lhe pertencia de origem. É por isto que quando o Homem Que Gosta De Ver retribui o bom dia vizinho ao Vizinho Bom Dia, este último só se acha de ouvidos presentes na primeira metade da frase, sendo a segunda das metades obliterada pela acelerada saída de cena do destinatário, perdendo-se essa mesma metade num hall já vazio de pessoas a quem desejar os bons dias, excepção feita, claro, para o Homem Que Gosta De Ver, mantendo-se esse no seu posto usual e habitualmente corriqueiro de todos os dias e sem necessidade de se cumprimentar com um bom dia a si próprio.
Entre o Vizinho Bom Dia e o Vizinho Seguinte passam-se sempre longos minutos, primeiro porque a hora de entrada de ambos nos respectivos locais de trabalho é separada por um intervalo temporal apreciável e, segundo, porque o Vizinho Bom Dia faz-se percursar em direcção ao emprego muito mais cedo do que lhe convém pelas razões já enunciadas. O Vizinho Seguinte tem o costumeiro hábito de se fazer alimentar logo pela manhã por uma genial posta de peixe frito, cujo acompanhamento varia de dia para dia, indo desde cenouras ou pepinos acompanhados por rodelas de tomate, até aos donuts açucarados. Por isso, não pelos acompanhamentos mas pelo peixe ou, para ser mais rigoroso, pelo característico e forte odor deste, o vizinho em causa tresanda de aroma pisciforme, motivo repelentório para que os narizes abordados sejam reactivos enviando para o cérebro o vulgar “cheira a peixe frito”. Deste, o Homem Que Gosta de Ver quer livrar-se da maneira mais breve possível, posto que é de características fáceis seguir ou perseguir o rasto aromático largado pelo Vizinho Seguinte transportando o referido cheiro já dentro de si e permanecendo este no hall ainda depois do seu dono se haver libertado do prédio que o envolve habitacionalmente.
Ainda mal largado o cheiro piscívoro no espaço quadridimensional do hall, tomando a nota que as quatro dimensões em presença são a largura, a altura, a profundidade e o tempo, surge já, atravessando cada uma destas pela mais curta recta que une a porta de saída do elevador à porta de saída do prédio, o vizinho que se segue na ordem de aparição em público. Este, o Vizinho Ausente, passa uma boa parte das cerca de vinte e quatro horas do dia no exterior do apartamento que lhe serve de abrigo. Sai cedo pela manhã e só regressa quando a noite cerrada se fez anunciar há já largas horas. Consigo transporta sempre um dossier que serve de arquivo a mais folhas de papel do que as que deveria comportar e tantas são elas que essa mesma pasta adquiriu já um formato especial criado pela demasia excessiva da quantidade desmedida de papel albergado no seu interior.
Fazendo-se esquivar do modo mais transparente possível devido à sua extrema timidez e falta de à vontade originada pela sua insegurança quando em permanência com outros seres humanos, surge o Vizinho Tímido quase de seguida ao Vizinho Ausente. Dir-se-ia mesmo que estando um a atravessar o hall de entrada do prédio já o outro se faz abandonar do seu apartamento situado um certo número de andares acima do rés-do-chão. Calhou um dia, um dos únicos em que o Homem Que Gosta De Ver se ausentou do seu lugar, seguir o Vizinho Tímido enquanto este se movimentava pela cidade, tendo como objectivo o saber mais a seu respeito. Nessa perseguição em busca de conhecimento, descobriu o Homem Que Gosta De Ver que o Vizinho Tímido se faz mover para o local que menos completo de pessoas se apresenta e percorre sempre as ruas cujas densidades populacionais sejam as menores nem que para isso tenha que se findar por um percurso desguarnecido de sentido assinalado como prático ou rápido. É constante a sua espera pelo autocarro que se mostre menos adornado de clientes nem que permaneça longuíssimos minutos em ausência de actividade produtiva mantendo-se especado em espera pelo transporte que mais lhe agrade do ponto de vista da ausência populacional do seu interior. Por via deste seu comportamento fugidio, o Vizinho Tímido vê-se na necessidade de se extrair de sua casa muito mais cedo do que seria de calcular já que uma boa parte do tempo que o faz demorar entre o seu abrigo habitacional e o seu lugar de possessão profissional é gasto na dispersão por locais ou por autocarros pouco completos de pessoas.
Com o dia um pouco mais aberto do que estava uns minutos antes, escusando-me de comentar que a madrugada se posiciona a um maior afastamento, surge perante a vista e a audição o Vizinho Que Fala Alto. O tom normal da sua voz aproxima-se de uma envergonhada gritaria e é de salientar o virtuoso eco que se cria no interior deste paralelepípedo habitacional quando as falas ostensivamente alargantes no que respeita à intensidade sonora se soltam do mecanismo de expressão vocal que se exibe envolto pelo Vizinho Que Fala Alto. Demonstrações de convívio entre vários indivíduos da espécie humana, revelaram o notório intervalo espacial que se abre à existência entre o dito vizinho e os restantes participantes na conversa pois torna-se desnecessário a aproximação do ponto de emissão de voz quando o Vizinho Que Fala Alto é detentor da posição de emissor, partilhando assim as suas ideias com quem de canais auditivos é possuidor, estando o receptor em questão razoavelmente perto ou já afastado do emissor, entendendo-se o razoavelmente perto por uma distância que alberga uma vasta quantidade de decímetros até uns poucos de metros.
Sentindo-se na necessidade de averiguar sobre a totalidade dos vizinhos que se tornaram de morada confirmada no edifício que tenho vindo a ter como cenário, o Homem Que Gosta De Ver iniciou-se numa actividade tida por alguns como depravada já que esta é sustentada pelo analisar visual e sem ser visto das várias tarefas e acções levadas a efeito por cada um dos vizinhos quando no interior do apartamento habitacional em que lhes compete viver. Serve-se de um intrincado sistema de minúsculas câmaras colocadas inacessivelmente nos vários locais destinados à habitação que existem neste seu prédio, estando essas câmaras conectadas a uma central construída numa das assoalhadas da casa do Homem Que Gosta De Ver, permitindo-lhe observar toda e qualquer acção ou actividade que cada um dos seus vizinhos desempenha nas suas vidas diárias, nada escapando aos olhos da vigilância. Quando, ao cair da noite, o Homem Que Gosta De Ver abandona o seu lugar no hall, recolhe-se no seu apartamento para observar o rescaldo do dia dos vizinhos, já que tudo é gravado e armazenado num arquivo para posterior visionamento. O Homem Que Gosta De Ver guarda também um registo cuidadoso e preciso no qual são documentadas as actividades ou as acções que são realizadas por cada uma das pessoas que, com ele, partilha o mesmo edifício. Aí, não só se assinala o tipo de actividade como também a hora a que esta é realizada. São informações que obtém através da extensão dos seus olhos que culmina nas câmaras. Para melhorar a qualidade das observações que executa, foram distribuídos por cada um dos apartamentos vários microfones de invisibilidade quase perfeita para que se torne possível gravar e ouvir as conversas debatidas a coberto do lar de cada um dos vizinhos.
26/03/09
O homem que explodiu
Houve um homem que explodiu enquanto se passeava pelos jardins da cidade. O ar cheirava a corpo, as entranhas explodidas do homem lançaram na atmosfera o odor que preenchia o interior daquele ser humano acabado de entrar na fase de sublimação por explosão.
Foi num dia calmo, as pessoas passeavam pelos jardins, as crianças brincavam. Com o tremendo som da explosão audível a grande distância, toda a gente ficou assustada e alarmada começando, pouco depois, alguns a gritar Um homem explodiu! Foi um homem que explodiu! Todos começaram a acorrer ao local onde se tinha dado esse acontecimento. Mas quando lá chegaram já nada existia que pudesse dar a entender que ali no local da deflagração ruidosa e luminosa tivesse ocorrido tão significativo acontecimento. Não se via o mais pequeno bocado de corpo, nem mesmo havia o cheiro a corpo que se fez notar no ar nos instantes logo após a explosão. Nada. Era como se nunca tivesse acontecido ali nada. O homem explodiu e desapareceu. Sublimou-se.
Foi num dia calmo, as pessoas passeavam pelos jardins, as crianças brincavam. Com o tremendo som da explosão audível a grande distância, toda a gente ficou assustada e alarmada começando, pouco depois, alguns a gritar Um homem explodiu! Foi um homem que explodiu! Todos começaram a acorrer ao local onde se tinha dado esse acontecimento. Mas quando lá chegaram já nada existia que pudesse dar a entender que ali no local da deflagração ruidosa e luminosa tivesse ocorrido tão significativo acontecimento. Não se via o mais pequeno bocado de corpo, nem mesmo havia o cheiro a corpo que se fez notar no ar nos instantes logo após a explosão. Nada. Era como se nunca tivesse acontecido ali nada. O homem explodiu e desapareceu. Sublimou-se.
O Menino da Tabuada
Há um homem entre tantos que sobe para o púlpito cúbico que se localiza no centro do jardim que tem o nome de Circular, posto que exibe não só comummente como também constantemente uma adensada configuração circular através da qual se expressa. Esse indivíduo é chamado pelos habitantes do bairro e também pelos do resto do mundo por Homem de Chapéu e, sobre a tribuna discursante inicia o seu discurso, fazendo juntar em seu redor alguma multidão constituída pelas gentes que se espalhavam pelas imediações. Dessa peça oratória faz parte como início, meio e fim, a frase Tal visão deixou cada mente atónita, era um monstro voador tão grande que cobria meio céu sempre que cruzava os ares, tão imenso que enegrecia a mais brilhante luz solar. Devo dizer que não presenciei tamanha ocorrência e tudo o que ouviram chegou-me por terceiros.
Então mas de quem ouviste essa história? pergunta a Mulher do Casaco Azul.
Por certo de algum velho marinheiro, desses que vê monstros marinhos e demais criaturas. Rio-me perante tais factos! afirma o Homem com Bengala.
Permites que te acompanhe no riso? coloca em pergunta a Mulher de Avental.
Com certeza! Riamos sem mais demoras! é a decisão do Homem com Bengala.
Ha! Ha! Ha! Ha! Ha! riem o Homem com Bengala e a Mulher de Avental.
Substituo o velho marinheiro por velho pioneiros dos ares, desses que voou nos primeiros aviões e voltou dizendo que viu monstros aéreos e demais criaturas. Permitam que a vós me junte no riso, é o pedido do Homem Muito Alto que faz o Homem com Bengala responder Não te autorizo a rires connosco. E não te autorizo porque nada soube desses pioneiros que referes. Fala-me sobre eles e, se me convenceres, rirás connosco.
E humildemente o Homem Muito Alto diz Preenchendo as minhas palavras com a mais nobre das verdades, afirmo que, tal como tu, nada soube desses pioneiros. Apenas o disse para me a vós juntar no riso.
Nesse caso, connosco não rirás, é a decisão do Homem com Bengala, fazendo avançar a Mulher com Cesto que se faz ouvir com Mas eu rio contigo, que falaste sobre os pioneiros aéreos. Insultado, o Homem Muito Alto reage dizendo Não, contigo não rirei! Não consinto que o faças comigo! Eu quero rir com o Homem com Bengala ou com a Mulher de Avental! dizendo a Mulher de Avental Eu rio contigo, mas que fique esclarecido que só o faço para terminar esta desavença. E os dois juntam-se para uma gargalhada Ha! Ha! Ha! Ha! Ha!
O Homem com Bengala retira-se deste cenário. Em redor do Homem de Chapéu mantêm-se a Mulher do Casaco Azul, a Mulher de Avental, o Homem Muito Alto e a Mulher com Cesto. O Homem com Bengala segue o seu caminho, deve ir para casa. Ele entra na rua onde mora e na casa onde mora, é um pequeno apartamento num segundo andar. Parece esperar alguém. Alguém bate à porta. O Homem com Bengala abre-a e alegra-se quando vê um inocente menino. É o Menino da Tabuada que entra e a porta é fechada. O Menino da Tabuada pára diante do Homem com Bengala e diz afirmativamente Um vezes um um, um vezes dois dois, um vezes três três, um vezes quatro quatro, um vezes cinco cinco, um vezes seis seis, um vezes sete sete, um vezes oito oito, um vezes nove nove, um vezes dez dez, dois vezes um dois, dois vezes dois quatro, dois vezes três seis, dois vezes quatro oito, dois vezes cinco dez, dois vezes seis dozes, dois vezes sete catorze, dois vezes oito dezasseis, dois vezes nove dezoito, dois vezes dez vinte, três vezes um três, três vezes dois seis, três vezes três nove, três vezes quatro doze, três vezes cinco quinze, três vezes seis dezoito, três vezes sete vinte e um, três vezes oito vinte e quatro, três vezes nove vinte e sete, três vezes dez trinta, quatro vezes um quatro, quatro vezes dois oito, quatro vezes três doze, quatro vezes quatro dezasseis, quatro vezes cinco vinte, quatro vezes seis vinte e quatro, quatro vezes sete vinte e oito, quatro vezes oito trinta e dois, quatro vezes nove trinta e seis, quatro vezes dez quarenta, cinco vezes um cinco, cinco vezes dois dez, cinco vezes três quinze, cinco vezes quatro vinte, cinco vezes cinco vinte e cinco, cinco vezes seis trinta, cinco vezes sete trinta e cinco, cinco vezes oito quarenta, cinco vezes nove, quarenta e cinco, cinco vezes dez cinquenta, seis vezes um seis, seis vezes dois doze, seis vezes três dezoito, seis vezes quatro vinte e quatro, seis vezes cinco trinta, seis vezes seis trinta e seis, seis vezes sete quarenta e dois, seis vezes oito quarenta e oito, seis vezes nove cinquenta e quatro, seis vezes dez sessenta, sete vezes um sete, sete vezes dois catorze, sete vezes três vinte e um, sete vezes quatro vinte e oito, sete vezes cinco trinta e cinco, sete vezes seis quarenta e dois, sete vezes sete quarenta e nove, sete vezes oito cinquenta e seis, sete vezes nove sessenta e três, sete vezes dez setenta, oito vezes um oito, oito vezes dois dezasseis, oito vezes três vinte e quatro, oito vezes quatro trinta e dois, oito vezes cinco quarenta, oito vezes seis quarenta e oito, oito vezes sete cinquenta e seis, oito vezes oito sessenta e quatro, oito vezes nove setenta e dois, oito vezes dez oitenta, nove vezes um nove, nove vezes dois dezoito, nove vezes três vinte e sete, nove vezes quatro trinta e seis, nove vezes cinco quarenta e cinco, nove vezes seis cinquenta e quatro, nove vezes sete sessenta e três, nove vezes oito setenta e dois, nove vezes nove oitenta e um, nove vezes dez noventa, dez vezes um dez, dez vezes dois vinte, dez vezes três trinta, dez vezes quatro quarenta, dez vezes cinco cinquenta, dez vezes seis sessenta, dez vez sete setenta, dez vezes oito oitenta, dez vezes nove noventa, dez vezes dez cem.
Em situação de felicidade o Homem com Bengala diz Muito bem! Está correcto! A partir deste momento passas a deter o Saber da Tabuada! Receberás um diploma e, em breve, serás eleito “Ditador da Tabuada” e serás a autoridade da Tabuada aqui na região. Serás a única pessoa que possuirá o Saber da Tabuada.
O Menino da Tabuada sai correndo e gritando Eu sei a tabuada! Eu sei a tabuada! Eu sou o detentor da tabuada! As pessoas acorrem a esta algazarra e aplaudem felicitando-o. Grita-se Hurra! Hurra! ou Viva o Menino da Tabuada! As palmas batem clap clap clap clap, os sinos tocam blein blein blein blein, os foguetes rebentam bum cabum pam pam pam bun-unn cabum! E lá vai o Menino da Tabuada. Todo ele brilha correndo até casa na qual entra pela porta e logo que se encontra no seu interior diz gritando Eu sei a tabuada! Eu sei a tabuada! O Menino da Tabuada sai correndo e corre veloz até ao púlpito cúbico do Jardim Circular. O Homem de Chapéu terminou agora mesmo o seu discurso. Como ele falou e falou e falou e falou. Falou e falou. Gastou as palavras de tanto falar. Agora o púlpito vagou e sobre ele apenas existe o peso da atmosfera porque ninguém o ocupa nem mesmo o Menino da Tabuada mas esse ainda não está autorizado porque não recebeu o diploma nem foi eleito Ditador da Tabuada apesar de, por certo, o povo já o saber (certeza, aliás, claramente visível pela celebração festiva que lhe entregaram depois de sair da casa do Homem com Bengala). O Menino da Tabuada torna-se uma personagem importante da vila tal como o são o Homem de Chapéu, o Homem com Bengala e a Mulher do Casaco Azul, apesar de esta última ser uma pessoa bastante calada ao contrário do Homem Muito Alto que sofre de falta de estima por parte dos outros habitantes havendo quem a este respeito diga que é por ser muito alto, ou seja, por ficar claramente acima de todos, mas eu pessoalmente não o creio, creio pois isso sim que a sua altura ou o facto de ser muito alto nada ter a ver com a sua importância na vila. Se tivéssemos de fazer um triângulo de poder este giraria entre o Homem de Chapéu, o Homem com Bengala e a Mulher do Casaco Azul e destes três cada um tem a sua especialidade sendo elas o dom da palavra para o Homem de Chapéu, o dom do ensino para o Homem com Bengala e o dom da maternidade para a Mulher do Casaco Azul. Ora claro está que a Mulher do Casaco Azul não é mãe de todos os habitantes desta vila cujo nome é Vila do Canto do Músico e tem este nome, julga-se que assim seja, porque em tempos que já lá vão e que se perdem na noite da História houve, diz-se, um músico que encontrou um canto que era só dele e que dedicou à sua amada que neste lugarejo habitava, tanto que também em tempos que já lá vão, pelo menos assim se diz, a vila obteve o nome de Vila Amada, mas foi nome de pouca dura, muita gente não gostava, uns por uma razão e outros por outra passando então para Vila do Canto do Músico.
De seguida repetirei o parágrafo que para trás ficou, mas agora di-lo-ei mais rapidamente:
O Menino da Tabuada sai correndo e gritando Eu sei a tabuada! Eu sei a tabuada! Eu sou o detentor da tabuada! As pessoas acorrem a esta algazarra e aplaudem felicitando-o. Grita-se Hurra! Hurra! ou Viva o Menino da Tabuada! As palmas batem clap clap clap clap, os sinos tocam blein blein blein blein, os foguetes rebentam bum cabum pam pam pam bun-unn cabum! E lá vai o Menino da Tabuada. Todo ele brilha correndo até casa na qual entra pela porta e logo que se encontra no seu interior diz gritando Eu sei a tabuada! Eu sei a tabuada! O Menino da Tabuada sai correndo e corre veloz até ao púlpito cúbico do Jardim Circular. O Homem de Chapéu terminou agora mesmo o seu discurso. Como ele falou e falou e falou e falou. Falou e falou. Gastou as palavras de tanto falar. Agora o púlpito vagou e sobre ele apenas existe o peso da atmosfera porque ninguém o ocupa nem mesmo o Menino da Tabuada mas esse ainda não está autorizado porque não recebeu o diploma nem foi eleito Ditador da Tabuada apesar de, por certo, o povo já o saber (certeza, aliás, claramente visível pela celebração festiva que lhe entregaram depois de sair da casa do Homem com Bengala). O Menino da Tabuada torna-se uma personagem importante da vila tal como o são o Homem de Chapéu, o Homem com Bengala e a Mulher do Casaco Azul, apesar de esta última ser uma pessoa bastante calada ao contrário do Homem Muito Alto que sofre de falta de estima por parte dos outros habitantes havendo quem a este respeito diga que é por ser muito alto, ou seja, por ficar claramente acima de todos, mas eu pessoalmente não o creio, creio pois isso sim que a sua altura ou o facto de ser muito alto nada ter a ver com a sua importância na vila. Se tivéssemos de fazer um triângulo de poder este giraria entre o Homem de Chapéu, o Homem com Bengala e a Mulher do Casaco Azul e destes três cada um tem a sua especialidade sendo elas o dom da palavra para o Homem de Chapéu, o dom do ensino para o Homem com Bengala e o dom da maternidade para a Mulher do Casaco Azul. Ora claro está que a Mulher do Casaco Azul não é mãe de todos os habitantes desta vila cujo nome é Vila do Canto do Músico e tem este nome, julga-se que assim seja, porque em tempos que já lá vão e que se perdem na noite da História houve, diz-se, um músico que encontrou um canto que era só dele e que dedicou à sua amada que neste lugarejo habitava, tanto que também em tempos que já lá vão, pelo menos assim se diz, a vila obteve o nome de Vila Amada, mas foi nome de pouca dura, muita gente não gostava, uns por uma razão e outros por outra passando então para Vila do Canto do Músico.
E agora o mais rapidamente possível, tão rápido que as palavras saltem da boca antes de serem ditas:
O Menino da Tabuada sai correndo e gritando Eu sei a tabuada! Eu sei a tabuada! Eu sou o detentor da tabuada! As pessoas acorrem a esta algazarra e aplaudem felicitando-o. Grita-se Hurra! Hurra! ou Viva o Menino da Tabuada! As palmas batem clap clap clap clap, os sinos tocam blein blein blein blein, os foguetes rebentam bum cabum pam pam pam bun-unn cabum! E lá vai o Menino da Tabuada. Todo ele brilha correndo até casa na qual entra pela porta e logo que se encontra no seu interior diz gritando Eu sei a tabuada! Eu sei a tabuada! O Menino da Tabuada sai correndo e corre veloz até ao púlpito cúbico do Jardim Circular. O Homem de Chapéu terminou agora mesmo o seu discurso. Como ele falou e falou e falou e falou. Falou e falou. Gastou as palavras de tanto falar. Agora o púlpito vagou e sobre ele apenas existe o peso da atmosfera porque ninguém o ocupa nem mesmo o Menino da Tabuada mas esse ainda não está autorizado porque não recebeu o diploma nem foi eleito Ditador da Tabuada apesar de, por certo, o povo já o saber (certeza, aliás, claramente visível pela celebração festiva que lhe entregaram depois de sair da casa do Homem com Bengala). O Menino da Tabuada torna-se uma personagem importante da vila tal como o são o Homem de Chapéu, o Homem com Bengala e a Mulher do Casaco Azul, apesar de esta última ser uma pessoa bastante calada ao contrário do Homem Muito Alto que sofre de falta de estima por parte dos outros habitantes havendo quem a este respeito diga que é por ser muito alto, ou seja, por ficar claramente acima de todos, mas eu pessoalmente não o creio, creio pois isso sim que a sua altura ou o facto de ser muito alto nada ter a ver com a sua importância na vila. Se tivéssemos de fazer um triângulo de poder este giraria entre o Homem de Chapéu, o Homem com Bengala e a Mulher do Casaco Azul e destes três cada um tem a sua especialidade sendo elas o dom da palavra para o Homem de Chapéu, o dom do ensino para o Homem com Bengala e o dom da maternidade para a Mulher do Casaco Azul. Ora claro está que a Mulher do Casaco Azul não é mãe de todos os habitantes desta vila cujo nome é Vila do Canto do Músico e tem este nome, julga-se que assim seja, porque em tempos que já lá vão e que se perdem na noite da História houve, diz-se, um músico que encontrou um canto que era só dele e que dedicou à sua amada que neste lugarejo habitava, tanto que também em tempos que já lá vão, pelo menos assim se diz, a vila obteve o nome de Vila Amada, mas foi nome de pouca dura, muita gente não gostava, uns por uma razão e outros por outra passando então para Vila do Canto do Músico.
Mas o Menino da Tabuada ganha coragem e, mesmo sem estar autorizado, sobe para o púlpito deixando a multidão em delírio com tamanho acto de bravura. Em uníssono o Homem de Chapéu, a Mulher do Casaco Azul, a Mulher de Avental, a Mulher com Cesto e o Homem Muito Alto gritam Viva o Menino da Tabuada! Viva o nosso Ditador! E do alto do púlpito o Menino da Tabuada agradece. Como não é normal aquele que adquire o Saber da Tabuada subir para o púlpito antes de, oficialmente, ser eleito Ditador da Tabuada, as pessoas não sabem como reagir: não sabem se devem esperar um discurso do eleito, não sabem se o devem interrogar, não sabem se apenas o devem aplaudir... Enfim, não sabem. E gera-se um burburinho entre a multidão: O que fazemos? pergunta-se. E todos olham com expressões apalermadas para o Menino da Tabuada que, do púlpito, conta a quantidade de folhas que uma árvore das proximidades contém.
O Homem Muito Alto é o primeiro a interromper a expressão apalermada e vira-se para o menino dizendo Peço-lhe desculpa por obrigá-lo a interromper a contagem, Senhor Ditador, mas ocorreu-me uma pergunta à qual não consigo obter resposta. Permite Vossa Excelência que lhe dirija a pergunta?
Permito não só a ti como a todos. Deixa que a tua boca se transforme na pergunta, ordena o Menino da Tabuada.
Oito vezes quatro? pergunta o Homem Muito Alto. Trinta e dois, responde o Menino da Tabuada. E faz-se silêncio. Entre a assistência. Aquele que sabe a tabuada deixa todos estupefactos perante tão grandiosa sabedoria, prontidão e rapidez de resposta. Agora alguém sabe a tabuada e os barcos zarpam em direcção ao mar enquanto a multidão em delírio grita a plenos pulmões Bons ventos! Bons ventos! não que a existência de ventos (favoráveis ou não) seja um factor a ter em conta já que os barcos, todos eles, são movidos com o auxílio de hélices propulsoras que os empurram mar adentro. Justifica-se gritar Bons ventos! pela razão que gritar Boas hélices! soa de modo diverso e, além disso, esta última hipótese terá de estar subjacente a vários factores, tais como, antes de se gritar Boas hélices! dever-se-ia gritar Bom motor! (que é o causador do movimento das hélices) e antes de se gritar Bom motor! dever-se-ia gritar Construção correcta do motor! (já que este foi idealizado e/ou construído por homens ou por um computador). E poder-se-ia continuar a gritar por alguma coisa, mas foi pedido pelo responsável da área portuária que se devesse manter silêncio tendo em vista a profunda sapiência do Menino da Tabuada.
Então mas de quem ouviste essa história? pergunta a Mulher do Casaco Azul.
Por certo de algum velho marinheiro, desses que vê monstros marinhos e demais criaturas. Rio-me perante tais factos! afirma o Homem com Bengala.
Permites que te acompanhe no riso? coloca em pergunta a Mulher de Avental.
Com certeza! Riamos sem mais demoras! é a decisão do Homem com Bengala.
Ha! Ha! Ha! Ha! Ha! riem o Homem com Bengala e a Mulher de Avental.
Substituo o velho marinheiro por velho pioneiros dos ares, desses que voou nos primeiros aviões e voltou dizendo que viu monstros aéreos e demais criaturas. Permitam que a vós me junte no riso, é o pedido do Homem Muito Alto que faz o Homem com Bengala responder Não te autorizo a rires connosco. E não te autorizo porque nada soube desses pioneiros que referes. Fala-me sobre eles e, se me convenceres, rirás connosco.
E humildemente o Homem Muito Alto diz Preenchendo as minhas palavras com a mais nobre das verdades, afirmo que, tal como tu, nada soube desses pioneiros. Apenas o disse para me a vós juntar no riso.
Nesse caso, connosco não rirás, é a decisão do Homem com Bengala, fazendo avançar a Mulher com Cesto que se faz ouvir com Mas eu rio contigo, que falaste sobre os pioneiros aéreos. Insultado, o Homem Muito Alto reage dizendo Não, contigo não rirei! Não consinto que o faças comigo! Eu quero rir com o Homem com Bengala ou com a Mulher de Avental! dizendo a Mulher de Avental Eu rio contigo, mas que fique esclarecido que só o faço para terminar esta desavença. E os dois juntam-se para uma gargalhada Ha! Ha! Ha! Ha! Ha!
O Homem com Bengala retira-se deste cenário. Em redor do Homem de Chapéu mantêm-se a Mulher do Casaco Azul, a Mulher de Avental, o Homem Muito Alto e a Mulher com Cesto. O Homem com Bengala segue o seu caminho, deve ir para casa. Ele entra na rua onde mora e na casa onde mora, é um pequeno apartamento num segundo andar. Parece esperar alguém. Alguém bate à porta. O Homem com Bengala abre-a e alegra-se quando vê um inocente menino. É o Menino da Tabuada que entra e a porta é fechada. O Menino da Tabuada pára diante do Homem com Bengala e diz afirmativamente Um vezes um um, um vezes dois dois, um vezes três três, um vezes quatro quatro, um vezes cinco cinco, um vezes seis seis, um vezes sete sete, um vezes oito oito, um vezes nove nove, um vezes dez dez, dois vezes um dois, dois vezes dois quatro, dois vezes três seis, dois vezes quatro oito, dois vezes cinco dez, dois vezes seis dozes, dois vezes sete catorze, dois vezes oito dezasseis, dois vezes nove dezoito, dois vezes dez vinte, três vezes um três, três vezes dois seis, três vezes três nove, três vezes quatro doze, três vezes cinco quinze, três vezes seis dezoito, três vezes sete vinte e um, três vezes oito vinte e quatro, três vezes nove vinte e sete, três vezes dez trinta, quatro vezes um quatro, quatro vezes dois oito, quatro vezes três doze, quatro vezes quatro dezasseis, quatro vezes cinco vinte, quatro vezes seis vinte e quatro, quatro vezes sete vinte e oito, quatro vezes oito trinta e dois, quatro vezes nove trinta e seis, quatro vezes dez quarenta, cinco vezes um cinco, cinco vezes dois dez, cinco vezes três quinze, cinco vezes quatro vinte, cinco vezes cinco vinte e cinco, cinco vezes seis trinta, cinco vezes sete trinta e cinco, cinco vezes oito quarenta, cinco vezes nove, quarenta e cinco, cinco vezes dez cinquenta, seis vezes um seis, seis vezes dois doze, seis vezes três dezoito, seis vezes quatro vinte e quatro, seis vezes cinco trinta, seis vezes seis trinta e seis, seis vezes sete quarenta e dois, seis vezes oito quarenta e oito, seis vezes nove cinquenta e quatro, seis vezes dez sessenta, sete vezes um sete, sete vezes dois catorze, sete vezes três vinte e um, sete vezes quatro vinte e oito, sete vezes cinco trinta e cinco, sete vezes seis quarenta e dois, sete vezes sete quarenta e nove, sete vezes oito cinquenta e seis, sete vezes nove sessenta e três, sete vezes dez setenta, oito vezes um oito, oito vezes dois dezasseis, oito vezes três vinte e quatro, oito vezes quatro trinta e dois, oito vezes cinco quarenta, oito vezes seis quarenta e oito, oito vezes sete cinquenta e seis, oito vezes oito sessenta e quatro, oito vezes nove setenta e dois, oito vezes dez oitenta, nove vezes um nove, nove vezes dois dezoito, nove vezes três vinte e sete, nove vezes quatro trinta e seis, nove vezes cinco quarenta e cinco, nove vezes seis cinquenta e quatro, nove vezes sete sessenta e três, nove vezes oito setenta e dois, nove vezes nove oitenta e um, nove vezes dez noventa, dez vezes um dez, dez vezes dois vinte, dez vezes três trinta, dez vezes quatro quarenta, dez vezes cinco cinquenta, dez vezes seis sessenta, dez vez sete setenta, dez vezes oito oitenta, dez vezes nove noventa, dez vezes dez cem.
Em situação de felicidade o Homem com Bengala diz Muito bem! Está correcto! A partir deste momento passas a deter o Saber da Tabuada! Receberás um diploma e, em breve, serás eleito “Ditador da Tabuada” e serás a autoridade da Tabuada aqui na região. Serás a única pessoa que possuirá o Saber da Tabuada.
O Menino da Tabuada sai correndo e gritando Eu sei a tabuada! Eu sei a tabuada! Eu sou o detentor da tabuada! As pessoas acorrem a esta algazarra e aplaudem felicitando-o. Grita-se Hurra! Hurra! ou Viva o Menino da Tabuada! As palmas batem clap clap clap clap, os sinos tocam blein blein blein blein, os foguetes rebentam bum cabum pam pam pam bun-unn cabum! E lá vai o Menino da Tabuada. Todo ele brilha correndo até casa na qual entra pela porta e logo que se encontra no seu interior diz gritando Eu sei a tabuada! Eu sei a tabuada! O Menino da Tabuada sai correndo e corre veloz até ao púlpito cúbico do Jardim Circular. O Homem de Chapéu terminou agora mesmo o seu discurso. Como ele falou e falou e falou e falou. Falou e falou. Gastou as palavras de tanto falar. Agora o púlpito vagou e sobre ele apenas existe o peso da atmosfera porque ninguém o ocupa nem mesmo o Menino da Tabuada mas esse ainda não está autorizado porque não recebeu o diploma nem foi eleito Ditador da Tabuada apesar de, por certo, o povo já o saber (certeza, aliás, claramente visível pela celebração festiva que lhe entregaram depois de sair da casa do Homem com Bengala). O Menino da Tabuada torna-se uma personagem importante da vila tal como o são o Homem de Chapéu, o Homem com Bengala e a Mulher do Casaco Azul, apesar de esta última ser uma pessoa bastante calada ao contrário do Homem Muito Alto que sofre de falta de estima por parte dos outros habitantes havendo quem a este respeito diga que é por ser muito alto, ou seja, por ficar claramente acima de todos, mas eu pessoalmente não o creio, creio pois isso sim que a sua altura ou o facto de ser muito alto nada ter a ver com a sua importância na vila. Se tivéssemos de fazer um triângulo de poder este giraria entre o Homem de Chapéu, o Homem com Bengala e a Mulher do Casaco Azul e destes três cada um tem a sua especialidade sendo elas o dom da palavra para o Homem de Chapéu, o dom do ensino para o Homem com Bengala e o dom da maternidade para a Mulher do Casaco Azul. Ora claro está que a Mulher do Casaco Azul não é mãe de todos os habitantes desta vila cujo nome é Vila do Canto do Músico e tem este nome, julga-se que assim seja, porque em tempos que já lá vão e que se perdem na noite da História houve, diz-se, um músico que encontrou um canto que era só dele e que dedicou à sua amada que neste lugarejo habitava, tanto que também em tempos que já lá vão, pelo menos assim se diz, a vila obteve o nome de Vila Amada, mas foi nome de pouca dura, muita gente não gostava, uns por uma razão e outros por outra passando então para Vila do Canto do Músico.
De seguida repetirei o parágrafo que para trás ficou, mas agora di-lo-ei mais rapidamente:
O Menino da Tabuada sai correndo e gritando Eu sei a tabuada! Eu sei a tabuada! Eu sou o detentor da tabuada! As pessoas acorrem a esta algazarra e aplaudem felicitando-o. Grita-se Hurra! Hurra! ou Viva o Menino da Tabuada! As palmas batem clap clap clap clap, os sinos tocam blein blein blein blein, os foguetes rebentam bum cabum pam pam pam bun-unn cabum! E lá vai o Menino da Tabuada. Todo ele brilha correndo até casa na qual entra pela porta e logo que se encontra no seu interior diz gritando Eu sei a tabuada! Eu sei a tabuada! O Menino da Tabuada sai correndo e corre veloz até ao púlpito cúbico do Jardim Circular. O Homem de Chapéu terminou agora mesmo o seu discurso. Como ele falou e falou e falou e falou. Falou e falou. Gastou as palavras de tanto falar. Agora o púlpito vagou e sobre ele apenas existe o peso da atmosfera porque ninguém o ocupa nem mesmo o Menino da Tabuada mas esse ainda não está autorizado porque não recebeu o diploma nem foi eleito Ditador da Tabuada apesar de, por certo, o povo já o saber (certeza, aliás, claramente visível pela celebração festiva que lhe entregaram depois de sair da casa do Homem com Bengala). O Menino da Tabuada torna-se uma personagem importante da vila tal como o são o Homem de Chapéu, o Homem com Bengala e a Mulher do Casaco Azul, apesar de esta última ser uma pessoa bastante calada ao contrário do Homem Muito Alto que sofre de falta de estima por parte dos outros habitantes havendo quem a este respeito diga que é por ser muito alto, ou seja, por ficar claramente acima de todos, mas eu pessoalmente não o creio, creio pois isso sim que a sua altura ou o facto de ser muito alto nada ter a ver com a sua importância na vila. Se tivéssemos de fazer um triângulo de poder este giraria entre o Homem de Chapéu, o Homem com Bengala e a Mulher do Casaco Azul e destes três cada um tem a sua especialidade sendo elas o dom da palavra para o Homem de Chapéu, o dom do ensino para o Homem com Bengala e o dom da maternidade para a Mulher do Casaco Azul. Ora claro está que a Mulher do Casaco Azul não é mãe de todos os habitantes desta vila cujo nome é Vila do Canto do Músico e tem este nome, julga-se que assim seja, porque em tempos que já lá vão e que se perdem na noite da História houve, diz-se, um músico que encontrou um canto que era só dele e que dedicou à sua amada que neste lugarejo habitava, tanto que também em tempos que já lá vão, pelo menos assim se diz, a vila obteve o nome de Vila Amada, mas foi nome de pouca dura, muita gente não gostava, uns por uma razão e outros por outra passando então para Vila do Canto do Músico.
E agora o mais rapidamente possível, tão rápido que as palavras saltem da boca antes de serem ditas:
O Menino da Tabuada sai correndo e gritando Eu sei a tabuada! Eu sei a tabuada! Eu sou o detentor da tabuada! As pessoas acorrem a esta algazarra e aplaudem felicitando-o. Grita-se Hurra! Hurra! ou Viva o Menino da Tabuada! As palmas batem clap clap clap clap, os sinos tocam blein blein blein blein, os foguetes rebentam bum cabum pam pam pam bun-unn cabum! E lá vai o Menino da Tabuada. Todo ele brilha correndo até casa na qual entra pela porta e logo que se encontra no seu interior diz gritando Eu sei a tabuada! Eu sei a tabuada! O Menino da Tabuada sai correndo e corre veloz até ao púlpito cúbico do Jardim Circular. O Homem de Chapéu terminou agora mesmo o seu discurso. Como ele falou e falou e falou e falou. Falou e falou. Gastou as palavras de tanto falar. Agora o púlpito vagou e sobre ele apenas existe o peso da atmosfera porque ninguém o ocupa nem mesmo o Menino da Tabuada mas esse ainda não está autorizado porque não recebeu o diploma nem foi eleito Ditador da Tabuada apesar de, por certo, o povo já o saber (certeza, aliás, claramente visível pela celebração festiva que lhe entregaram depois de sair da casa do Homem com Bengala). O Menino da Tabuada torna-se uma personagem importante da vila tal como o são o Homem de Chapéu, o Homem com Bengala e a Mulher do Casaco Azul, apesar de esta última ser uma pessoa bastante calada ao contrário do Homem Muito Alto que sofre de falta de estima por parte dos outros habitantes havendo quem a este respeito diga que é por ser muito alto, ou seja, por ficar claramente acima de todos, mas eu pessoalmente não o creio, creio pois isso sim que a sua altura ou o facto de ser muito alto nada ter a ver com a sua importância na vila. Se tivéssemos de fazer um triângulo de poder este giraria entre o Homem de Chapéu, o Homem com Bengala e a Mulher do Casaco Azul e destes três cada um tem a sua especialidade sendo elas o dom da palavra para o Homem de Chapéu, o dom do ensino para o Homem com Bengala e o dom da maternidade para a Mulher do Casaco Azul. Ora claro está que a Mulher do Casaco Azul não é mãe de todos os habitantes desta vila cujo nome é Vila do Canto do Músico e tem este nome, julga-se que assim seja, porque em tempos que já lá vão e que se perdem na noite da História houve, diz-se, um músico que encontrou um canto que era só dele e que dedicou à sua amada que neste lugarejo habitava, tanto que também em tempos que já lá vão, pelo menos assim se diz, a vila obteve o nome de Vila Amada, mas foi nome de pouca dura, muita gente não gostava, uns por uma razão e outros por outra passando então para Vila do Canto do Músico.
Mas o Menino da Tabuada ganha coragem e, mesmo sem estar autorizado, sobe para o púlpito deixando a multidão em delírio com tamanho acto de bravura. Em uníssono o Homem de Chapéu, a Mulher do Casaco Azul, a Mulher de Avental, a Mulher com Cesto e o Homem Muito Alto gritam Viva o Menino da Tabuada! Viva o nosso Ditador! E do alto do púlpito o Menino da Tabuada agradece. Como não é normal aquele que adquire o Saber da Tabuada subir para o púlpito antes de, oficialmente, ser eleito Ditador da Tabuada, as pessoas não sabem como reagir: não sabem se devem esperar um discurso do eleito, não sabem se o devem interrogar, não sabem se apenas o devem aplaudir... Enfim, não sabem. E gera-se um burburinho entre a multidão: O que fazemos? pergunta-se. E todos olham com expressões apalermadas para o Menino da Tabuada que, do púlpito, conta a quantidade de folhas que uma árvore das proximidades contém.
O Homem Muito Alto é o primeiro a interromper a expressão apalermada e vira-se para o menino dizendo Peço-lhe desculpa por obrigá-lo a interromper a contagem, Senhor Ditador, mas ocorreu-me uma pergunta à qual não consigo obter resposta. Permite Vossa Excelência que lhe dirija a pergunta?
Permito não só a ti como a todos. Deixa que a tua boca se transforme na pergunta, ordena o Menino da Tabuada.
Oito vezes quatro? pergunta o Homem Muito Alto. Trinta e dois, responde o Menino da Tabuada. E faz-se silêncio. Entre a assistência. Aquele que sabe a tabuada deixa todos estupefactos perante tão grandiosa sabedoria, prontidão e rapidez de resposta. Agora alguém sabe a tabuada e os barcos zarpam em direcção ao mar enquanto a multidão em delírio grita a plenos pulmões Bons ventos! Bons ventos! não que a existência de ventos (favoráveis ou não) seja um factor a ter em conta já que os barcos, todos eles, são movidos com o auxílio de hélices propulsoras que os empurram mar adentro. Justifica-se gritar Bons ventos! pela razão que gritar Boas hélices! soa de modo diverso e, além disso, esta última hipótese terá de estar subjacente a vários factores, tais como, antes de se gritar Boas hélices! dever-se-ia gritar Bom motor! (que é o causador do movimento das hélices) e antes de se gritar Bom motor! dever-se-ia gritar Construção correcta do motor! (já que este foi idealizado e/ou construído por homens ou por um computador). E poder-se-ia continuar a gritar por alguma coisa, mas foi pedido pelo responsável da área portuária que se devesse manter silêncio tendo em vista a profunda sapiência do Menino da Tabuada.
21/03/09
Histórias do País do Gigante
O País do Gigante
O país do gigante é um local onde metade do tempo está sol, metade do tempo está a chover e metade do tempo está nevoeiro. Nesse país vive o gigante, o menino, cem centopeias, os bonecos amarelos e os bonecos azuis e os bonecos amarelos contam-se entre os seres vivos que o gigante quer exterminar do mundo. O gigante não chega a um consenso quanto à maneira de exterminar os bonecos amarelos, de umas vezes ele prefere fazê-lo de uma maneira, de outras prefere fazê-lo de outra e assim por diante. Ele, o próprio gigante, já contactou o Conselho de Anciãos do seu país, conselho esse constituído pelo próprio e único gigante, mas a divergência mantém-se e também não chega a um consenso e assim os bonecos amarelos vivem em harmonia entre si e são vizinhos dos bonecos azuis que habitam uma aldeia ali próxima.
Uma das vezes, o gigante tentou exterminar os bonecos amarelos baseando-se numa estratégia de trespassar veloz e destrutivamente a aldeia desses bonecos, achatando com o seu peso tudo e todos quanto lhe surgia pela frente mas ao verem a veloz aproximação do gigante, os bonecos amarelos puseram-se em alerta gritando tão alto quanto podiam e se ouviam gritar que vem um gigante a caminho com o objectivo primário de esmigalhar até à exaustão a aldeia dos bonecos amarelos e ao ouvir tal algazarra os bonecos azuis não hesitaram em oferecer ajuda aos bonecos amarelos, interpondo-se entre o gigante e a aldeia vítima. Não se sabe se os bonecos azuis conseguiram impedir a investida do gigante dado que o historiador que narrou esta história morreu antes do seu término.
O gigante mora na casa mais pequena que encontrou porque ele diz que quer morar na casa mais pequena que existe porque só assim consegue as condições ideais de total habitabilidade porque só assim ele acha que sim. O gigante tem muita força e, por isso, conseguiu mover a montanha que tapava a visibilidade plena da casa do menino. O menino nunca se apercebeu da mudança de posição da montanha porque o seu pequeno tamanho não lhe permite observar coisas e outros objectos que são muito maiores do que ele e desta maneira o gigante sabe sempre quando o menino está em casa porque nos momentos em que ele não está, o gigante desloca-se até casa do menino e destrói-a com um murro violento e brutal e, de seguida, esconde-se por trás de um monte grande o suficiente que oculte o seu grande tamanho em posição de espera para que o menino regresse a casa. Quando de volta a casa, o menino vê a sua casa, como todos os dias, destruída e diz A minha casa foi destruída e reconstrói-a. A única razão que faz com que o gigante tenha diariamente esta atitude destrutiva sobre a casa do menino é o facto de ele, o gigante, achar uma graça infindável à frase A minha casa foi destruída, que o faz rir a gargalhadas soltas e sonoras.
De uma centopeia que o gigante viu passaram duas centopeias e o cavalo que atravessa o país do gigante começa a cantar. Mas o gigante não fica amedrontado nem com a música nem com o cavalo. O gigante não sabe que está a ser seguido pelo menino e que o menino traz consigo uma das cem centopeias que guarda carinhosamente no seu quintal onde há cem pequenas casas, uma para cada centopeia e cada uma dessas habitações foi construída individualmente pelas mãos do menino. O gigante sempre teve inveja das centopeias do menino e está constantemente a fazer com que o cavalo que atravessa o país do gigante pare de cantar. Para isso ele precisa de construir um mecanismo que funcione a hidrogénio porque é o hidrogénio que origina a interrupção do funcionamento do cavalo. O menino pega numa centopeia e com ela agride brutalmente a face do gigante. Foi necessário o menino dar um grande salto para contrariar a força da gravidade para que lhe fosse possível, com a centopeia na mão, agredir a face do gigante. A razão deste facto advém de ser o gigante muito mais alto que o menino. O som da centopeia na face do gigante foi FLAP, em que FLA significa o barulho que a centopeia faz enquanto se dobra sobre si criando balanço para o impacto e o P é a letra demonstrativa do som que a centopeia faz ao embater na face do gigante. Sentindo na sua cara a centopeia e vendo qual a origem de tal acto, o gigante permitiu-se açoitar o menino e a centopeia para longe, mas fez mal os cálculos à força necessária e o menino e a centopeia foram lançados para o quintal onde permanecem as outras noventa e nove centopeias. O quintal do menino guarda uma catapulta construída com os mais modernos apetrechos e foi especialmente concebida para lançar centopeias contra o gigante. O menino toca uma flauta que faz reunir as cem centopeias e com a habilidade que lhe é inata, junta-as numa formação específica que facilita a subida de cada uma para a catapulta e uma a uma o gigante é bombardeado pelas centopeias que o vão cobrindo formando uma massa centopaica. No final do lançamento das cem centopeias o menino lança-se ele próprio contra o gigante e irritado com o sucedido, o gigante liberta-se aos safanões das centopeias e do menino. Um dos safanões envia o menino para o outro lado do mundo tombando directamente sobre o Tesouro das Minas do Rei Salomão que é, assim, descoberto e todos os arqueólogos do mundo rumam para lá com o intuito de observar o dito Tesouro.
O Menino fez um Avião de Papel
O menino quer fazer um avião de papel. Para tal, ele necessita de percorrer vários passos, tal como o passo essencial denominado “A busca da folha de papel”. Dá-se então a procura por esse objecto enquanto os carros passam e as pessoas também.
O menino não encontra a folha de papel e, por isso, muda de cor, primeiro fica verde e depois azul. Com a mudança de cor, o menino torna-se mais evoluído a nível auditivo o que o faz ouvir melhor e a maior distância o ruído efectuado pela folha de papel quando esta hesita de movimentos já que a Terra é um planeta cujo eixo vertical sofre uma rotação a cada cerca de vinte e quatro horas. Essa rotação transporta consigo tudo quanto está assente na sua superfície, desde seres vivos até aos objectos inanimados e o único objecto que não é transportado pelo movimento de rotação da Terra é a folha de papel, estando ela posicionada num local específico da crusta terrestre quando a crusta se move o papel fica estático e este movimento e anti-movimento gera um pequeno ruído de fricção que o menino ouve quando se torna azul. Tendo localizado o local exacto onde se encontra a folha de papel, o menino inicia uma viagem através de vales, montanhas, cidades e campos até se tornar chegado ao ponto de localização da folha de papel. Aí, ele pega na folha com as suas mãos e inicia a dobragem da folha em causa, que responde a uma série de regras que são necessárias seguir para que o papel fique capacitado de voar. Tendo em atenção compreendida estas regras, o menino constrói o avião dobrando a folha de papel. Um pormenor aliciante está no facto de o tamanho da folha de papel ser grande o suficiente para conter, quando em voo, o menino e o seu peso. Com o avião construído, o menino empoleira-se nele e, com a ajuda do vento, o veículo inicia o seu voo. Agora o menino e o avião estão separados do solo.
Repentinamente o menino apercebe-se que não colocou comando algum no seu meio de transporte o que proporciona que este ande à deriva, deixando-se levar ao sabor dos ventos e lá vai o menino voando até que o avião aterre e aterrou agora no país das pessoas que falam sozinhas que rapidamente circundam o avião e removem com alguma violência o menino para o exterior do veículo voador dizendo-lhe Você está acusado por ter um processo contra si e arrastam-no até à sala da acusação onde é empurrado para o seu interior. É aqui que as pessoas são formalmente acusadas, já que é aqui que está o juiz que faz a acusação que se dirige ao menino dizendo Você está acusado e será preso no calabouço da nossa cidade até que os factos decidam o contrário. E, de novo, o menino é arrastado por mais alguns metros até ser bruscamente atirado para o interior do calabouço. O calabouço está vazio e cheira a gasolina. A porta do calabouço é violentamente empurrada e fechada, deixando o menino na semi-obscuridade na companhia do cheiro a gasolina. Semi-obscuridade porque apenas existe uma pequena janela para o dia e uma fraquíssima lâmpada para a noite para iluminar aquele ambiente. Do lado exterior do calabouço, um lado que dá para o exterior apenas, alguns soldados romanos que sobraram do tempo das legiões quebram a parede que encerra o menino e este é arrastado, agora pelos soldados romanos para um local que está cheio de pessoas que não são romanas. Aí, o juiz dirige-se ao menino dizendo Você está acusado e será levado para o calabouço da cidade.
Dez ideias sobre uma centopeia que não corre
Ideia 1:
A centopeia quando corre faz muito barulho mas quando não corre vem o gigante e o menino corre tão veloz que parece uma onomatopeia.
Ideia 2:
A centopeia quando corre faz muito barulho mas quando não corre vem o gigante e come o menino e Polifemo conquista o mundo infantil.
Ideia 3:
A centopeia quando corre faz muito barulho mas quando não corre Hércules contra-ataca e marca um golo na própria baliza e o árbitro diz que é falta.
Ideia 4:
A centopeia quando corre faz muito barulho mas quando não corre a velocidade de escape necessária para escapar à gravidade da Terra tem de ser aumentada, o que origina toda uma nova fase de cálculos científicos relacionados com o lançamento de satélites e outros veículos espaciais, pois os que existem estão baseados na centopeia enquanto corredora.
Ideia 5:
A centopeia quando corre faz muito barulho mas quando não corre o mundo fica cúbico.
Ideia 6:
A centopeia quando corre faz muito barulho mas quando não corre fica sem correr.
Ideia 7:
A centopeia quando corre faz muito barulho mas quando não corre o menino agride brutalmente o gigante.
Ideia 8:
A centopeia quando corre faz muito barulho mas quando não corre todos os habitantes do mundo tornam-se analfabetos.
Ideia 9:
A centopeia quando corre faz muito barulho mas quando não corre a economia mundial entra em recessão.
Ideia 10:
A centopeia quando corre faz muito barulho mas quando não corre fica pensativa e começa a correr.
O país do gigante é um local onde metade do tempo está sol, metade do tempo está a chover e metade do tempo está nevoeiro. Nesse país vive o gigante, o menino, cem centopeias, os bonecos amarelos e os bonecos azuis e os bonecos amarelos contam-se entre os seres vivos que o gigante quer exterminar do mundo. O gigante não chega a um consenso quanto à maneira de exterminar os bonecos amarelos, de umas vezes ele prefere fazê-lo de uma maneira, de outras prefere fazê-lo de outra e assim por diante. Ele, o próprio gigante, já contactou o Conselho de Anciãos do seu país, conselho esse constituído pelo próprio e único gigante, mas a divergência mantém-se e também não chega a um consenso e assim os bonecos amarelos vivem em harmonia entre si e são vizinhos dos bonecos azuis que habitam uma aldeia ali próxima.
Uma das vezes, o gigante tentou exterminar os bonecos amarelos baseando-se numa estratégia de trespassar veloz e destrutivamente a aldeia desses bonecos, achatando com o seu peso tudo e todos quanto lhe surgia pela frente mas ao verem a veloz aproximação do gigante, os bonecos amarelos puseram-se em alerta gritando tão alto quanto podiam e se ouviam gritar que vem um gigante a caminho com o objectivo primário de esmigalhar até à exaustão a aldeia dos bonecos amarelos e ao ouvir tal algazarra os bonecos azuis não hesitaram em oferecer ajuda aos bonecos amarelos, interpondo-se entre o gigante e a aldeia vítima. Não se sabe se os bonecos azuis conseguiram impedir a investida do gigante dado que o historiador que narrou esta história morreu antes do seu término.
O gigante mora na casa mais pequena que encontrou porque ele diz que quer morar na casa mais pequena que existe porque só assim consegue as condições ideais de total habitabilidade porque só assim ele acha que sim. O gigante tem muita força e, por isso, conseguiu mover a montanha que tapava a visibilidade plena da casa do menino. O menino nunca se apercebeu da mudança de posição da montanha porque o seu pequeno tamanho não lhe permite observar coisas e outros objectos que são muito maiores do que ele e desta maneira o gigante sabe sempre quando o menino está em casa porque nos momentos em que ele não está, o gigante desloca-se até casa do menino e destrói-a com um murro violento e brutal e, de seguida, esconde-se por trás de um monte grande o suficiente que oculte o seu grande tamanho em posição de espera para que o menino regresse a casa. Quando de volta a casa, o menino vê a sua casa, como todos os dias, destruída e diz A minha casa foi destruída e reconstrói-a. A única razão que faz com que o gigante tenha diariamente esta atitude destrutiva sobre a casa do menino é o facto de ele, o gigante, achar uma graça infindável à frase A minha casa foi destruída, que o faz rir a gargalhadas soltas e sonoras.
De uma centopeia que o gigante viu passaram duas centopeias e o cavalo que atravessa o país do gigante começa a cantar. Mas o gigante não fica amedrontado nem com a música nem com o cavalo. O gigante não sabe que está a ser seguido pelo menino e que o menino traz consigo uma das cem centopeias que guarda carinhosamente no seu quintal onde há cem pequenas casas, uma para cada centopeia e cada uma dessas habitações foi construída individualmente pelas mãos do menino. O gigante sempre teve inveja das centopeias do menino e está constantemente a fazer com que o cavalo que atravessa o país do gigante pare de cantar. Para isso ele precisa de construir um mecanismo que funcione a hidrogénio porque é o hidrogénio que origina a interrupção do funcionamento do cavalo. O menino pega numa centopeia e com ela agride brutalmente a face do gigante. Foi necessário o menino dar um grande salto para contrariar a força da gravidade para que lhe fosse possível, com a centopeia na mão, agredir a face do gigante. A razão deste facto advém de ser o gigante muito mais alto que o menino. O som da centopeia na face do gigante foi FLAP, em que FLA significa o barulho que a centopeia faz enquanto se dobra sobre si criando balanço para o impacto e o P é a letra demonstrativa do som que a centopeia faz ao embater na face do gigante. Sentindo na sua cara a centopeia e vendo qual a origem de tal acto, o gigante permitiu-se açoitar o menino e a centopeia para longe, mas fez mal os cálculos à força necessária e o menino e a centopeia foram lançados para o quintal onde permanecem as outras noventa e nove centopeias. O quintal do menino guarda uma catapulta construída com os mais modernos apetrechos e foi especialmente concebida para lançar centopeias contra o gigante. O menino toca uma flauta que faz reunir as cem centopeias e com a habilidade que lhe é inata, junta-as numa formação específica que facilita a subida de cada uma para a catapulta e uma a uma o gigante é bombardeado pelas centopeias que o vão cobrindo formando uma massa centopaica. No final do lançamento das cem centopeias o menino lança-se ele próprio contra o gigante e irritado com o sucedido, o gigante liberta-se aos safanões das centopeias e do menino. Um dos safanões envia o menino para o outro lado do mundo tombando directamente sobre o Tesouro das Minas do Rei Salomão que é, assim, descoberto e todos os arqueólogos do mundo rumam para lá com o intuito de observar o dito Tesouro.
O Menino fez um Avião de Papel
O menino quer fazer um avião de papel. Para tal, ele necessita de percorrer vários passos, tal como o passo essencial denominado “A busca da folha de papel”. Dá-se então a procura por esse objecto enquanto os carros passam e as pessoas também.
O menino não encontra a folha de papel e, por isso, muda de cor, primeiro fica verde e depois azul. Com a mudança de cor, o menino torna-se mais evoluído a nível auditivo o que o faz ouvir melhor e a maior distância o ruído efectuado pela folha de papel quando esta hesita de movimentos já que a Terra é um planeta cujo eixo vertical sofre uma rotação a cada cerca de vinte e quatro horas. Essa rotação transporta consigo tudo quanto está assente na sua superfície, desde seres vivos até aos objectos inanimados e o único objecto que não é transportado pelo movimento de rotação da Terra é a folha de papel, estando ela posicionada num local específico da crusta terrestre quando a crusta se move o papel fica estático e este movimento e anti-movimento gera um pequeno ruído de fricção que o menino ouve quando se torna azul. Tendo localizado o local exacto onde se encontra a folha de papel, o menino inicia uma viagem através de vales, montanhas, cidades e campos até se tornar chegado ao ponto de localização da folha de papel. Aí, ele pega na folha com as suas mãos e inicia a dobragem da folha em causa, que responde a uma série de regras que são necessárias seguir para que o papel fique capacitado de voar. Tendo em atenção compreendida estas regras, o menino constrói o avião dobrando a folha de papel. Um pormenor aliciante está no facto de o tamanho da folha de papel ser grande o suficiente para conter, quando em voo, o menino e o seu peso. Com o avião construído, o menino empoleira-se nele e, com a ajuda do vento, o veículo inicia o seu voo. Agora o menino e o avião estão separados do solo.
Repentinamente o menino apercebe-se que não colocou comando algum no seu meio de transporte o que proporciona que este ande à deriva, deixando-se levar ao sabor dos ventos e lá vai o menino voando até que o avião aterre e aterrou agora no país das pessoas que falam sozinhas que rapidamente circundam o avião e removem com alguma violência o menino para o exterior do veículo voador dizendo-lhe Você está acusado por ter um processo contra si e arrastam-no até à sala da acusação onde é empurrado para o seu interior. É aqui que as pessoas são formalmente acusadas, já que é aqui que está o juiz que faz a acusação que se dirige ao menino dizendo Você está acusado e será preso no calabouço da nossa cidade até que os factos decidam o contrário. E, de novo, o menino é arrastado por mais alguns metros até ser bruscamente atirado para o interior do calabouço. O calabouço está vazio e cheira a gasolina. A porta do calabouço é violentamente empurrada e fechada, deixando o menino na semi-obscuridade na companhia do cheiro a gasolina. Semi-obscuridade porque apenas existe uma pequena janela para o dia e uma fraquíssima lâmpada para a noite para iluminar aquele ambiente. Do lado exterior do calabouço, um lado que dá para o exterior apenas, alguns soldados romanos que sobraram do tempo das legiões quebram a parede que encerra o menino e este é arrastado, agora pelos soldados romanos para um local que está cheio de pessoas que não são romanas. Aí, o juiz dirige-se ao menino dizendo Você está acusado e será levado para o calabouço da cidade.
Dez ideias sobre uma centopeia que não corre
Ideia 1:
A centopeia quando corre faz muito barulho mas quando não corre vem o gigante e o menino corre tão veloz que parece uma onomatopeia.
Ideia 2:
A centopeia quando corre faz muito barulho mas quando não corre vem o gigante e come o menino e Polifemo conquista o mundo infantil.
Ideia 3:
A centopeia quando corre faz muito barulho mas quando não corre Hércules contra-ataca e marca um golo na própria baliza e o árbitro diz que é falta.
Ideia 4:
A centopeia quando corre faz muito barulho mas quando não corre a velocidade de escape necessária para escapar à gravidade da Terra tem de ser aumentada, o que origina toda uma nova fase de cálculos científicos relacionados com o lançamento de satélites e outros veículos espaciais, pois os que existem estão baseados na centopeia enquanto corredora.
Ideia 5:
A centopeia quando corre faz muito barulho mas quando não corre o mundo fica cúbico.
Ideia 6:
A centopeia quando corre faz muito barulho mas quando não corre fica sem correr.
Ideia 7:
A centopeia quando corre faz muito barulho mas quando não corre o menino agride brutalmente o gigante.
Ideia 8:
A centopeia quando corre faz muito barulho mas quando não corre todos os habitantes do mundo tornam-se analfabetos.
Ideia 9:
A centopeia quando corre faz muito barulho mas quando não corre a economia mundial entra em recessão.
Ideia 10:
A centopeia quando corre faz muito barulho mas quando não corre fica pensativa e começa a correr.
A Doninha Nadinha
Entra entra que faz n diz a Doninha Nadinha de volta do halo Herkúleo Fáktor
Esta é a história da Doninha Nadinha que quando nasceu era tão pequena que até o seu cheiro nauseabundo de náusea cobria um espaço maior do que ela, grande o suficiente para afugentar, manter afastado e oprimir qualquer visita chegada ao local do nascimento, motivo mais do que suficiente para manter todo e qualquer ser vivo a coberto da maior distância possível, mantendo a Doninha Nadinha isolada até dos próprios progenitores que se viram forçados a abandoná-la logo que nasceu e tudo isto por causa da náusea pútrida que emanava do seu corpo de doninha.
Ceifada que estava de nascença e de semblante chacinado pelo cheiro emanado, Doninha Nadinha aprendeu desde muito nova a questionar-se sobre o mundo e, por via da sua infelicidade odorífica, procurou por si explicações e respostas às questões que levantava. De início tomava-se de coragem forçada e enriquecida e, completa de vontades, empreendia a moléstia sentida pelo seu pai ou pela sua mãe incomodando os canais olfactivos de ambos num objectivo de saciar a curiosidade indagadora de que Nadinha padece desde que se tornou ser vivente. Mas tendo como princípio de vida a colocação distante da sua cria, Doninha Pai e Doninha Mãe afugentavam-se a si próprios tão cedo quanto as suas narinas fossem vergastadas pela primeiríssima molécula odorífera das generosamente distribuídas e compartilhadas por Doninha Nadinha. Ao perceber este corriqueiro e habitual de hábito frequente modo de desconcilio de proximidade da cria por parte dos pais, Nadinha iniciou-se numa empreendização de se escutar a si própria enquanto dialogava solitariamente deixando a sua voz ser a pergunta e a sua voz ser a resposta, mencionando perguntas e levantando questões acerca das quais a sua voz respondia ao apelo feito pela sua pergunta. E assim Doninha Nadinha principiou-se na demanda de descobrir por sua conta os segredos do mundo habitável.
De instintos paternais e maternais, Doninha Pai e Doninha Mãe usurparam-se para uma casa vizinha, deixando a ainda recém-nascida Nadinha vivendo isolada na casa do lado por forma a que o seu cheiro não se lhes acercasse e se lhes entranhasse de forma tão violenta pelos corpos de ambos. Mas apesar da separação residencial e das paredes que havia de permeio, nada fazia conter o cheiro de enjoo pútrido soltado por Nadinha. De esforços violentos, Doninha Pai e Doninha Mãe seguraram estoicamente as suas presenças na casa para onde se mudaram após o nascimento objectivando os cuidados necessários a um recém-nascido e a um pós-recém-nascido, mas tal presença não foi conseguida por muito tempo pois por pouco tempo foram os cuidados prestados, após os quais Doninha Pai e Doninha Mãe sucumbiram à necessidade de se ausentar para o mais longe possível do repulsivo aroma, sendo este também o culpado pela fuga apressada de todos os habitantes morantes na localidade onde Nadinha habitava. As povoações mais próximas foram também alvo de expulsão voluntária dos seus habitantes, ficando, portanto, Doninha Nadinha a única moradora num raio de muitos quilómetros.
Eis de chegada a hora destinada a Doninha Nadinha se dar por ausentada de sua casa onde, abrigada, foi excluída para crescer até se dar por tornada pós-recém-nascida, altura propícia para que os progenitores deixassem a despensa e restante armaria repleta de mantimentos e víveres no geral, juntamente com um manual explicativo no qual Nadinha tomou conhecimento das variadas formas de preencher os vazios do estômago recorrendo aos elementos armazenados pelos pais para esse efeito, já a pensar planeadamente no momento de dar Nadinha por abandonada. Cedo Nadinha percebeu de certezas asseguradas que se encontrava sozinha e solitária numa área geográfica abrangente da totalidade de terreno que circundava a sua casa. Levada através de fecundação indagadora iniciou-se na sua demanda por saberes conhecidos e dos outros que cobrem as terras do mundo habitável.
Saída de casa pela porta que faz a comunicação entre o exterior e o interior do lar e local de evolução espacial para quem deseje passar do espaço externo para o interno e vice-versa, tomando um apontamento que “versa-vice” significa evoluir do espaço interior para o do exterior, Nadinha faz uso da medida intitulada “passos” para se fazer movimentar no mundo em que se acha solitária, mundo esse alvo de pesquisas aprofundadas destinadas a satisfazer as curiosidades de Doninha Nadinha.
Esta é a história da Doninha Nadinha que quando nasceu era tão pequena que até o seu cheiro nauseabundo de náusea cobria um espaço maior do que ela, grande o suficiente para afugentar, manter afastado e oprimir qualquer visita chegada ao local do nascimento, motivo mais do que suficiente para manter todo e qualquer ser vivo a coberto da maior distância possível, mantendo a Doninha Nadinha isolada até dos próprios progenitores que se viram forçados a abandoná-la logo que nasceu e tudo isto por causa da náusea pútrida que emanava do seu corpo de doninha.
Ceifada que estava de nascença e de semblante chacinado pelo cheiro emanado, Doninha Nadinha aprendeu desde muito nova a questionar-se sobre o mundo e, por via da sua infelicidade odorífica, procurou por si explicações e respostas às questões que levantava. De início tomava-se de coragem forçada e enriquecida e, completa de vontades, empreendia a moléstia sentida pelo seu pai ou pela sua mãe incomodando os canais olfactivos de ambos num objectivo de saciar a curiosidade indagadora de que Nadinha padece desde que se tornou ser vivente. Mas tendo como princípio de vida a colocação distante da sua cria, Doninha Pai e Doninha Mãe afugentavam-se a si próprios tão cedo quanto as suas narinas fossem vergastadas pela primeiríssima molécula odorífera das generosamente distribuídas e compartilhadas por Doninha Nadinha. Ao perceber este corriqueiro e habitual de hábito frequente modo de desconcilio de proximidade da cria por parte dos pais, Nadinha iniciou-se numa empreendização de se escutar a si própria enquanto dialogava solitariamente deixando a sua voz ser a pergunta e a sua voz ser a resposta, mencionando perguntas e levantando questões acerca das quais a sua voz respondia ao apelo feito pela sua pergunta. E assim Doninha Nadinha principiou-se na demanda de descobrir por sua conta os segredos do mundo habitável.
De instintos paternais e maternais, Doninha Pai e Doninha Mãe usurparam-se para uma casa vizinha, deixando a ainda recém-nascida Nadinha vivendo isolada na casa do lado por forma a que o seu cheiro não se lhes acercasse e se lhes entranhasse de forma tão violenta pelos corpos de ambos. Mas apesar da separação residencial e das paredes que havia de permeio, nada fazia conter o cheiro de enjoo pútrido soltado por Nadinha. De esforços violentos, Doninha Pai e Doninha Mãe seguraram estoicamente as suas presenças na casa para onde se mudaram após o nascimento objectivando os cuidados necessários a um recém-nascido e a um pós-recém-nascido, mas tal presença não foi conseguida por muito tempo pois por pouco tempo foram os cuidados prestados, após os quais Doninha Pai e Doninha Mãe sucumbiram à necessidade de se ausentar para o mais longe possível do repulsivo aroma, sendo este também o culpado pela fuga apressada de todos os habitantes morantes na localidade onde Nadinha habitava. As povoações mais próximas foram também alvo de expulsão voluntária dos seus habitantes, ficando, portanto, Doninha Nadinha a única moradora num raio de muitos quilómetros.
Eis de chegada a hora destinada a Doninha Nadinha se dar por ausentada de sua casa onde, abrigada, foi excluída para crescer até se dar por tornada pós-recém-nascida, altura propícia para que os progenitores deixassem a despensa e restante armaria repleta de mantimentos e víveres no geral, juntamente com um manual explicativo no qual Nadinha tomou conhecimento das variadas formas de preencher os vazios do estômago recorrendo aos elementos armazenados pelos pais para esse efeito, já a pensar planeadamente no momento de dar Nadinha por abandonada. Cedo Nadinha percebeu de certezas asseguradas que se encontrava sozinha e solitária numa área geográfica abrangente da totalidade de terreno que circundava a sua casa. Levada através de fecundação indagadora iniciou-se na sua demanda por saberes conhecidos e dos outros que cobrem as terras do mundo habitável.
Saída de casa pela porta que faz a comunicação entre o exterior e o interior do lar e local de evolução espacial para quem deseje passar do espaço externo para o interno e vice-versa, tomando um apontamento que “versa-vice” significa evoluir do espaço interior para o do exterior, Nadinha faz uso da medida intitulada “passos” para se fazer movimentar no mundo em que se acha solitária, mundo esse alvo de pesquisas aprofundadas destinadas a satisfazer as curiosidades de Doninha Nadinha.
A Família de Braquiberta
Braquiberta tem nome de dinossauro e Aloberto é seu filho. De lá de casa, o mais extrovertido é Bracoberto, fonte de fala corrente e, muitas vezes, sem significado. Este último é tio de Estegoberto, irmão de Aloberto que, por sua vez, é filho de Grogoberto. Para ser correcto, Bracoberto não tem residência lá em casa, pois divide um pequeno espaço no exterior da casa de Braquiberta com os seus irmãos Hadroberto e Acrocanteberta.
Logo pela manhã o mais cedo possível, Bracoberto bate furiosamente à porta de casa de Braquiberta pedindo para o deixar entrar. Todo ele se transforma em pancadas na porta de madeira estremecendo tudo quanto é para estremecer e todas as manhãs Braquiberta grita lá de dentro Hoje não! mas de nada vale esse Hoje não! porque Bracoberto é de ideias fixas e se ninguém houver que lhe abra a porta deixando-o entrar naquele que não é o seu lar, nada lhe custa aguardar o dia inteiro e até a noite para que o deixem penetrar mantendo sempre as pancadas fortes na madeira da porta e isto até já aconteceu um dia que o deixaram plantado do lado de fora e durante todo o dia foi uma constante bordoada naquela que não é a sua porta com um barulho que se tornou insuportável. E de nada adianta Hadroberto e Acrocanteberta evitarem que o seu irmão agrida violentamente a porta de Braquiberta pois nada o demove da sua missão diária. Todas as manhãs ele assume-se como o batedor oficial da porta de Braquiberta enquanto Grogoberto, homem de poucas palavras e que normalmente se expressa por monossílabos ou por palavras com poucas sílabas, não concorda com a vinda abrupta e diária de Bracoberto tendo já feito queixa às autoridades locais que o informaram nada poderem fazer visto se tratar de um problema familiar. Com isto, Aloberto e Estegoberto são diariamente acordados pelo colérico agredir da porta que, aos poucos, começa a ceder através das suas dobradiças.
Foi assaltado Bracoberto uma vez por uma ideia que lhe pareceu a melhor de todas e que iria solucionar o problema de não ser atendido de imediato logo que solta a primeira batidela para a porta de Braquiberta. Em vez de agredir a porta com a força do seu punho fechado que, por si só não estava a ser suficiente para o objectivo fixado, apanhou do chão uma pedra com algum peso e, com ambas as mãos tornou-a um prolongamento do seu corpo. E essa foi uma excelente ideia a de Bracoberto porque lhe foi possível, por um lado, importunar ainda mais a família de Braquiberta e, por outro, permitiu-lhe abrir uma lacuna na porta, permitindo-lhe não só espreitar para o interior da casa como também abri-la através da inserção do seu braço na falha aberta na mesma. Nesse dia Aloberto e Estegoberto acorreram de imediato numa vã tentativa de livrar através da expulsão a mão e o braço de Bracoberto da fechadura, mas este, tendo a força física como meio de salvação afastou, num gesto, os filhos de Braquiberta, conseguindo, assim, entrar na casa. Nesse mesmo dia, a porta foi substituída por outra blindada à prova de pedras e outras ameaças, facto que deixou Bracoberto descontente por ver a sua ideia quebrada, restando-lhe, a partir desse dia, voltar ao uso das suas mãos. Apesar disso, experimentou diversos instrumentos como pedras, paus, vigas de ferro, machados ou martelos, apenas para nomear alguns, mas de nada lhe valeram pois a porta blindada não permitiu qualquer mossa na sua superfície, o que quer dizer que desse dia em diante, Bracoberto só entrará se alguém houver da família de Braquiberta que lhe dê autorização para tal, servindo-se, para isso, do movimento de abertura da porta, pondo em contacto o espaço exterior da casa com o espaço interior da mesma e criando um ponto de passagem para Bracoberto. Mas tão grande é a sua insistência que este indivíduo surge diariamente no interior do lar de Braquiberta para desagrado desta última e também de Aloberto e de Estegoberto. Quanto a Grogoborto tem por hábito murmurar algumas palavras imperceptíveis de insatisfação mas devido à sua constante falta de acção limita-se a esse murmúrio irado e retira-se de cena, deixando a resolução da situação a cargo dos restantes elementos. Destes, Aloberto e Estegoberto excluem-se de casa rumando ao local de ensino, enquanto Braquiberta também sai por ser detentora de uma posição profissional no exterior do seu local de habitação. Tendo a casa por sua conta, Bracoberto chama Hadroberto e Acrocanteberta para, com ele, partilharem o lar devido à ausência da família de Braquiberta. Igualmente pelo mesmo motivo de ausência, as autoridades locais apressam-se a ocupar a dita habitação, seguidos por todos os moradores da cidade que se acotovelam e comprimem uns contra os outros tendo em vista a obtenção de um espaço no interior da casa de Braquiberta. E durante todo a manhã permanecem imóveis em pé e apertados uns contra os outros e tão estáticos quanto possível. Tornam-se tão comprimidos entre si que ficam impossibilitados de fazer o mais pequeno dos movimentos e mal conseguindo respirar. Todas aquelas pessoas formam uma massa compacta de um único ser indefinível.
Aquele novo ser que, ao início se mostra desconjuntado, vai tomando a sua forma à medida que entram mais e mais e cada vez mais pessoas que se vão comprimindo o mais possível umas contra as outras, apertando-se cada vez mais, não deixando o mais pequeno dos espaços vagos entre cada uma, indo estas entalando-se umas contras as outras e as outras contra as umas que vão entrando pela porta deixada aberta por Bracoberto para que seja permitido o acumular de pessoas que agora vai enchendo cada vez de forma mais completa e compacta a casa de Braquiberta. De todos os lados da cidade surgem pessoas que se dirigem da forma mais directa possível para a casa de Braquiberta. Desconhece-se o número total de pessoas que enche na totalidade aquela casa e que define o ser compacto agora formado pelo conjunto de todos os presentes na casa de Braquiberta. Cada uma das pessoas deixa de ser individual e passa a ser um elemento integrante do ser estando cada uma como que interligada às pessoas que a ladeiam. Quando o ser está completo, inicia o seu movimento saindo pela porta por onde entraram as pessoas e vagueia livremente pela cidade. Esse ser não tem uma forma definida adaptando-se ao local em que se encontra, tornando-se curvante quando necessário ou rectilíneo quando a isso se pede. Durante todo o dia ele move-se errantemente e sem destino pelas ruas da cidade. Com o aproximar da hora em que Braquiberta termina o seu emprego, o ser regressa à casa que o viu juntar e lá a pessoa colectiva torna-se novamente em pessoa individual regressando cada um à casa que o viu sair.
Bracoberto, Hadroberto e Acrocanteberta regressam ao espaço em que habitam e Braquiberta, Groberto, Aloberto e Estegoberto regressam a casa.
Logo pela manhã o mais cedo possível, Bracoberto bate furiosamente à porta de casa de Braquiberta pedindo para o deixar entrar. Todo ele se transforma em pancadas na porta de madeira estremecendo tudo quanto é para estremecer e todas as manhãs Braquiberta grita lá de dentro Hoje não! mas de nada vale esse Hoje não! porque Bracoberto é de ideias fixas e se ninguém houver que lhe abra a porta deixando-o entrar naquele que não é o seu lar, nada lhe custa aguardar o dia inteiro e até a noite para que o deixem penetrar mantendo sempre as pancadas fortes na madeira da porta e isto até já aconteceu um dia que o deixaram plantado do lado de fora e durante todo o dia foi uma constante bordoada naquela que não é a sua porta com um barulho que se tornou insuportável. E de nada adianta Hadroberto e Acrocanteberta evitarem que o seu irmão agrida violentamente a porta de Braquiberta pois nada o demove da sua missão diária. Todas as manhãs ele assume-se como o batedor oficial da porta de Braquiberta enquanto Grogoberto, homem de poucas palavras e que normalmente se expressa por monossílabos ou por palavras com poucas sílabas, não concorda com a vinda abrupta e diária de Bracoberto tendo já feito queixa às autoridades locais que o informaram nada poderem fazer visto se tratar de um problema familiar. Com isto, Aloberto e Estegoberto são diariamente acordados pelo colérico agredir da porta que, aos poucos, começa a ceder através das suas dobradiças.
Foi assaltado Bracoberto uma vez por uma ideia que lhe pareceu a melhor de todas e que iria solucionar o problema de não ser atendido de imediato logo que solta a primeira batidela para a porta de Braquiberta. Em vez de agredir a porta com a força do seu punho fechado que, por si só não estava a ser suficiente para o objectivo fixado, apanhou do chão uma pedra com algum peso e, com ambas as mãos tornou-a um prolongamento do seu corpo. E essa foi uma excelente ideia a de Bracoberto porque lhe foi possível, por um lado, importunar ainda mais a família de Braquiberta e, por outro, permitiu-lhe abrir uma lacuna na porta, permitindo-lhe não só espreitar para o interior da casa como também abri-la através da inserção do seu braço na falha aberta na mesma. Nesse dia Aloberto e Estegoberto acorreram de imediato numa vã tentativa de livrar através da expulsão a mão e o braço de Bracoberto da fechadura, mas este, tendo a força física como meio de salvação afastou, num gesto, os filhos de Braquiberta, conseguindo, assim, entrar na casa. Nesse mesmo dia, a porta foi substituída por outra blindada à prova de pedras e outras ameaças, facto que deixou Bracoberto descontente por ver a sua ideia quebrada, restando-lhe, a partir desse dia, voltar ao uso das suas mãos. Apesar disso, experimentou diversos instrumentos como pedras, paus, vigas de ferro, machados ou martelos, apenas para nomear alguns, mas de nada lhe valeram pois a porta blindada não permitiu qualquer mossa na sua superfície, o que quer dizer que desse dia em diante, Bracoberto só entrará se alguém houver da família de Braquiberta que lhe dê autorização para tal, servindo-se, para isso, do movimento de abertura da porta, pondo em contacto o espaço exterior da casa com o espaço interior da mesma e criando um ponto de passagem para Bracoberto. Mas tão grande é a sua insistência que este indivíduo surge diariamente no interior do lar de Braquiberta para desagrado desta última e também de Aloberto e de Estegoberto. Quanto a Grogoborto tem por hábito murmurar algumas palavras imperceptíveis de insatisfação mas devido à sua constante falta de acção limita-se a esse murmúrio irado e retira-se de cena, deixando a resolução da situação a cargo dos restantes elementos. Destes, Aloberto e Estegoberto excluem-se de casa rumando ao local de ensino, enquanto Braquiberta também sai por ser detentora de uma posição profissional no exterior do seu local de habitação. Tendo a casa por sua conta, Bracoberto chama Hadroberto e Acrocanteberta para, com ele, partilharem o lar devido à ausência da família de Braquiberta. Igualmente pelo mesmo motivo de ausência, as autoridades locais apressam-se a ocupar a dita habitação, seguidos por todos os moradores da cidade que se acotovelam e comprimem uns contra os outros tendo em vista a obtenção de um espaço no interior da casa de Braquiberta. E durante todo a manhã permanecem imóveis em pé e apertados uns contra os outros e tão estáticos quanto possível. Tornam-se tão comprimidos entre si que ficam impossibilitados de fazer o mais pequeno dos movimentos e mal conseguindo respirar. Todas aquelas pessoas formam uma massa compacta de um único ser indefinível.
Aquele novo ser que, ao início se mostra desconjuntado, vai tomando a sua forma à medida que entram mais e mais e cada vez mais pessoas que se vão comprimindo o mais possível umas contra as outras, apertando-se cada vez mais, não deixando o mais pequeno dos espaços vagos entre cada uma, indo estas entalando-se umas contras as outras e as outras contra as umas que vão entrando pela porta deixada aberta por Bracoberto para que seja permitido o acumular de pessoas que agora vai enchendo cada vez de forma mais completa e compacta a casa de Braquiberta. De todos os lados da cidade surgem pessoas que se dirigem da forma mais directa possível para a casa de Braquiberta. Desconhece-se o número total de pessoas que enche na totalidade aquela casa e que define o ser compacto agora formado pelo conjunto de todos os presentes na casa de Braquiberta. Cada uma das pessoas deixa de ser individual e passa a ser um elemento integrante do ser estando cada uma como que interligada às pessoas que a ladeiam. Quando o ser está completo, inicia o seu movimento saindo pela porta por onde entraram as pessoas e vagueia livremente pela cidade. Esse ser não tem uma forma definida adaptando-se ao local em que se encontra, tornando-se curvante quando necessário ou rectilíneo quando a isso se pede. Durante todo o dia ele move-se errantemente e sem destino pelas ruas da cidade. Com o aproximar da hora em que Braquiberta termina o seu emprego, o ser regressa à casa que o viu juntar e lá a pessoa colectiva torna-se novamente em pessoa individual regressando cada um à casa que o viu sair.
Bracoberto, Hadroberto e Acrocanteberta regressam ao espaço em que habitam e Braquiberta, Groberto, Aloberto e Estegoberto regressam a casa.
Exercício literário com palavras que começam com a letra A
A abola arroda assobre ao acampo aque aquele ahomem aestá. Ae ajá achega adeste aexercício.
O vómito:
Inadvertidamente vomitei suco gástrico sobre o meu vizinho enquanto este se aliviava de alguma quantidade de esperma armazenado em suas bolsas.
O vómito:
Inadvertidamente vomitei suco gástrico sobre o meu vizinho enquanto este se aliviava de alguma quantidade de esperma armazenado em suas bolsas.
Outra Personagem
Toc toc toc, alguém bate à porta. Senhor Outra! Senhor Outra! Alguém me chama do lado de lá da porta. Já acordou, senhor Outra? Bem... Agora já acordei. O que é?
Rapariga que Bate à Porta: O pequeno-almoço está pronto. Pode descer quando quiser.
Está bem. Já lá vou.
Todas as manhãs é a mesma coisa. Todas as manhãs bate à porta, chama-me, eu pergunto O que é? e ela responde O pequeno-almoço está pronto. Pode descer quando quiser. E todas as manhãs sempre assim será. Bate à porta, sempre com três pancadas toc toc toc, a do início, a do meio e a do fim, completando um ciclo, chama-me, eu pergunto O que é? ela responde O pequeno-almoço está pronto. Pode descer quando quiser. E já quase totalmente desperto olho para aquilo que sempre é a primeira coisa que vejo: o tecto branco. Já o pintei de outra cor (castanho) mas todas as manhãs aquilo que sempre via em primeiro era o tecto castanho. Tenho estado a pensar pintá-lo de outra cor, talvez verde ou azul, outra solução seria olhar primeiro para a segunda coisa que vejo, se bem que a segunda coisa varia de dia para dia. Uma vez foi uma garrafa de vinho tinto que ficou tombada sobre a cómoda deixando verter para o chão o líquido interior. Outra vez deixei-me levar pelas voltas zonzas de uma mosca que voava e que comigo partilhou o quarto e tanto nela me concentrei que lhe tomei o corpo deixando de estar deitado e voava como insecto. Após ver a segunda coisa e enquanto me apronto para o pequeno-almoço, tenho o costumeiro hábito de fazer uma espécie de jogos mentais desde a associação de palavras (casa lembra janela, janela lembra vidro, vidro lembra reflexo, reflexo lembra relva, relva lembra jardim, jardim lembra árvore, árvore lembra folhas, folhas lembra maçã, maçã lembra vermelho... E assim por diante). Outro jogo que costumo fazer é dizer o alfabeto de vinte e seis letras e levantar uma mão (alternadamente a esquerda e a direita) de cada vez que digo uma letra. Por exemplo, A (levanto a mão direita) B (levanto a mão esquerda) C (a direita) D (a esquerda) E (direita) F (esquerda) G (direita) H (esquerda) I (direita) J (esquerda) K (direita) L (esquerda) M (direita) N (esquerda) O (direita) P (esquerda) Q (direita) R (esquerda) S (direita) T (esquerda) U (direita) V (esquerda) W (direita) X (esquerda) Y (direita) Z (esquerda). Costumo também dizer palavras ao acaso, mas tirando-lhes (também ao acaso) algumas letras. Costu bém di pala a caso, ma tindo-e (tam a so) gum tras. Depois isolo as letras que sobraram: mo tam zer vras o a, s ra-lh (bém o aca) alas le. Há até dias em que fico todo o tempo em que me apronto a tentar criar um destes jogos, algumas vezes sem o conseguir. Não sei se a Rapariga que Bate à Porta sabe disto, nem sei se gostaria que soubesse, pois iria, certamente originar a pergunta Então senhor Outra, que jogo fez hoje? enquanto me alimento do pequeno-almoço. Eu contratei-a apenas para os afazeres da casa (limpeza e cozinha) nem alojamento lhe dou, entra todos os dias de manhã e sai todos os dias à noite. O serviço de despertar toc toc toc é de sua criação. Concluiu que me deve acordar todas as manhãs à mesma hora. Já lhe disse que não há necessidade de o fazer, mas ela insiste em continuar. Pois bem, faça-o. Também não a contratei para conversar comigo mas ela conversa. Costumamos dialogar. Um fala e o outro ouve, um pergunta e o outro responde. Em vez de lhe dar alojamento, dou-lhe alimento. Alimenta-se sempre aqui em casa e senta-se sempre no mesmo lugar da mesa que é aquele que não me é destinado. É frequente alimentarmo-nos em simultâneo e ela também fala bastante, talvez tenha palavras em demasia ou as palavras não se segurem dentro do seu corpo. Mas há algo que me agrada nos pequenos-almoços que prepara. São uns pãezinhos que compra e que cuidadosamente coloca num prato para meu deleite enquanto bebo o leite, o café e os variados doces e compotas e às vezes alguma extravagância como uns bolinhas especiais de fabrico próprio que ela cuida bastante para que sejam tirados do forno com o tempo de cozedura exacto e medido ao segundo porque, diz a Rapariga Só assim se tornam supremos no sabor e são ainda servidos mornos porque, diz a Rapariga Só assim se tornam supremos no sabor. Acho que é uma receita qualquer que descobriu entre o livro de receitas da Mãe que costuma cozinhar correntemente, uma senhora que não conheço pessoalmente mas que abundantes e excessivas vezes é assunto de conversa durante as refeições, A minha Mãe isto ou A minha Mãe aquilo e ainda aqueloutro dalém. E perde-se bastante quando fala de lugares, descreve-os minuciosamente, o que está onde, quantas cores e quais existem, quem estava e onde, quem faltava e porque faltava, quando aconteceu, as pedras e as árvores e poços das imediações, pássaros e cães e outras espécies e por aí fora e demais coisas que lá existem. E quando as conta, as suas curtas e rápidas viagens são assunto para muitas refeições, como os episódios de uma série televisiva, daqueles que continuam de uns para os outros. Muitas vezes a mesma cena atravessa várias refeições. Sim, sim, digo-lhe eu ou Pois, pois, porque se lhe fizer uma qualquer pergunta sobre a situação que descreve, é provável que essa pergunta dê origem a umas tantas outras situações e descrições e ao Isso que diz lembra-me outra coisa, que arrasta consigo assunto para mais umas tantas refeições. Remeto-me, por isso, ao Sim, sim e ao Pois, pois e há mesmo uma exigência na manutenção desses dois termos (o sim e o pois) pois se lhe digo Que interessante, a rapariga interrompe subitamente a história e pergunta-me Porque acha interessante, senhor Outra? situação que me obriga a responder largamente visto que ela não se contenta com um É interessante porque tal e tal e tal e porque isto ou aquilo e por aí fora, porque se lhe respondo, a conversa aumenta consideravelmente de tamanho e atravessa ainda mais refeições do que aquelas que seria de prever. Mantenho a preferência no pois que é o mais neutro dos termos aplicáveis numa situação destas em que o pois tem simplesmente o mesmo valor de Estou a ouvir-te. E quando termino a minha refeição e a rapariga deixa uma frase a meio, continua essa mesma frase na refeição seguinte começando-a exactamente onde parou, que é um aspecto que acontece bastante nas suas refeições, as coisas ficarem de uma para a outra, seja a frase que ficou inacabada, seja a carne ou o peixe ou as batatas que não foram terminadas por a quantidade de comida ingerida ter já sido suficiente, seja o sumo ou o vinho ou a água não totalmente despejado do copo, seja o bocado sobrado do pão, a peça de fruta não terminada, tudo é visto na mesa da refeição seguinte. Creio que foi um hábito que aprendeu com a Mãe, o de nada desperdiçar. Chega a aproveitar as migalhas de pão, bolo e similares espalhadas sobre a mesa, junta-as num pequeno saco de pano bordado à mão para o efeito e leva-as para o parque objectivando reespalha-las aos pássaros que por lá andam e voam, que já a conhecem e reúnem-se e preparam sempre um grande festim, com o senão daquelas poucas migalhas, ainda que acumuladas de dois ou três dias, não sejam suficientes para alimentar toda a passarada, por isso há outras pessoas que espalham e atiram migalhas e pedaços de pão e bolo por forma a alimentar todos eles e são pessoas que já se conhecem e conhecem-se dali mesmo de um Olá vizinha, como vai? ou de um Olá colega, mas não digo que todos os dias se encontrem à mesma hora, preferem fazê-lo a diferentes horas, nem sei se cada uma delas terá uma hora certa para o fazer e duvido também que as aves prefiram comer a este ou àquele momento do dia, pois quando se trata de alimento todas elas surgem de todos os lados, umas de lá, outras de cá, umas dalém, outras d'aquém e mesmo quando constroem o ninho aterram para que recebam a comida. O Inquilino do Lado, meu vizinho desde sempre, resolveu tomar o seu pequeno-almoço comigo em minha casa. Vi-o com espanto a bater à minha porta a um momento do dia pouco próprio para o fazer, mas o certo é que bateu bateu e a Rapariga que Bate à Porta perguntou Quem é? e ele respondeu É o Inquilino do Lado. A porta foi aberta tornando-se ponto de penetração no meu lar facilitando a presença do meu vizinho no seu interior. Sei como se processou esta cena porque estava já a caminho da mesa de refeições e ouvi tudo o que disseram, o que quer dizer que estava suficientemente próximo para conseguir ouvir, pois certo seria nada escutar se me encontrasse mais longe, mas o suficiente para nada escutar, enquanto a uma distância intermédia entre o longe e o perto talvez conseguisse ouvir metade da cena. Mas o certo é que o Inquilino do Lado entrou, viu-me e aproximou-se de mim livrando-se de um Bom dia, senhor Outra. Como está? Como não podia ignorá-lo, fingindo que o não vi, fui obrigado a retribuir aquele cumprimento matinal dizendo-lhe Bom dia, rapidamente seguido de Não o esperava ver aqui a estas horas (nem a nenhumas outras) mas já não me lembro que resposta se soltou de si porque isto aconteceu há algum tempo e não costumo decorar as respostas que os vizinhos me dão e a única coisa que me lembro desse arrastado pequeno-almoço foi uma conversa semi-dialogada sobre as mulheres que deitam migalhas aos pássaros e há até um ponto central no parque que é o local onde as migalhas são doadas e todas as mulheres sabem já que aquela é a mesa das aves e por isso aquele é não só o ponto de encontro entre elas, como também o ponto de união entre humanos e aves e claro que outros animais como as formigas também lá vão receber e muitas delas devem, acompanhadas da migalha que transportam entre as mandíbulas, servir de alimento a um pássaro. Não creio que hoje haja os tais bolinhos especiais pois não lhes sinto o cheiro, mas talvez haja os pãezinhos que são saborosos, não sei também onde a Rapariga que Bate à Porta guarda o livro de receitas e raramente sei quando é dia de comer pãezinhos, não sei também quais as compotas e doces que são colocados na superfície da mesa, sobre tudo isso apenas sei que tudo o que lá há é mantido no interior de um prato redondo. Esses pratos são fabricados à mão na olaria do tio da Rapariga que Bate à Porta que faz sempre pratos redondos porque, diz ele, Os quadrados não se vendem. Não que o sistema digestivo se importe, dê atenção, ou incomode de deglutir e digerir alimentos provindos de pratos quadrados e até creio que para os dentes tanto se lhe faz ser o prato redondo ou quadrado. Soube que esse mesmo tio tem um sobrinho que costumar acentuar a última sílaba de cada palavra. Ele diz Tarântu-lââ, lá está a tarântu-lââ. Também não conheço o tio ou o sobrinho, só sei que existem porque a Rapariga que Bate à Porta fala neles, O meu tio fez uns pratos redondos muito bonitos e têm florzinhas pequeninas azuis e brancas o prato é da cor do barro mas são muito bonitos o senhor Outra haveria de gostar deles e de comer deles vou trazer-lhe um um dia que me lembre e deram algum trabalho a fazer porque foi uma senhora que fez ao meu Tio uma encomenda de pratos e os pratos tinham que ter uma medida especial tinham que ter não sei quantos centímetros de diâmetro porque se fossem maiores ou mais pequenos não ficavam bem na mesa porque eram vários pratos que a mesa ia ter e se fossem maiores poderiam não caber todos e se fossem mais pequenos não ficariam bem porque os talheres são grandes e ficariam maiores do que os pratos na mesa e por isso o meu tio teve um grande trabalho para que os pratos depois de cozidos ficassem com o tamanho certo e as florzinhas também foram um pedido da senhora que lhe disse Eu quero que os pratos tenham florzinhas azuis e brancas porque a minha toalha é azul e branca os talheres brancos e os copos azuis e assim fica tudo igual e lembro-me que estava a chover no dia em que os pratos ficaram prontos. Do Sobrinho a Rapariga que Bate à Porta não fala muito, muito pouco fala até. Parece-me até que estas três pessoas são os únicos familiares que a Rapariga que Bate à Porta me fala. Se seguirmos uma ordem de importância temos, em primeiro lugar a Mãe, pela maneira como a Rapariga abocanha vorazmente as palavras sempre que dela me informa, em segundo lugar o Tio que se torna assunto de conversa sempre que necessário e, por fim, o Sobrinho que é quase uma figura inexistente. Aquela vez em que os pássaros faltavam na sua maior parte, todas as mulheres perguntavam Onde estão os pássaros? Por que não vêm os pássaros? mas, por fim, lá apareceram, deviam estar. Espero que hoje não me fale do Tio ou da Mãe ou do Sobrinho, não me apetece saber deles. Prefiro saber o que ela fez ontem depois de sair daqui ou hoje antes de chegar, ainda que, quando abordados, esses assuntos se tornem desinteressantes e eu não quero saber o que fez ontem ou hoje. Há qualquer coisa planeada para hoje mas não me lembro o quê, talvez a Rapariga saiba, ela costuma saber estas coisas, onde vou, o que preciso de fazer. Até me diz sem eu perguntar Hoje, senhor Outra, tem uma reunião com o senhor tal em tal sítio e a tal hora. Não se esqueça de levar isto, isto e aquilo. E há sempre esta coisa que se esquece, veja lá não se esqueça desta vez. Ela diz-me quando eu descer para o pequeno-almoço.
Rapariga que Bate à Porta: O pequeno-almoço está pronto. Pode descer quando quiser.
Está bem. Já lá vou.
Todas as manhãs é a mesma coisa. Todas as manhãs bate à porta, chama-me, eu pergunto O que é? e ela responde O pequeno-almoço está pronto. Pode descer quando quiser. E todas as manhãs sempre assim será. Bate à porta, sempre com três pancadas toc toc toc, a do início, a do meio e a do fim, completando um ciclo, chama-me, eu pergunto O que é? ela responde O pequeno-almoço está pronto. Pode descer quando quiser. E já quase totalmente desperto olho para aquilo que sempre é a primeira coisa que vejo: o tecto branco. Já o pintei de outra cor (castanho) mas todas as manhãs aquilo que sempre via em primeiro era o tecto castanho. Tenho estado a pensar pintá-lo de outra cor, talvez verde ou azul, outra solução seria olhar primeiro para a segunda coisa que vejo, se bem que a segunda coisa varia de dia para dia. Uma vez foi uma garrafa de vinho tinto que ficou tombada sobre a cómoda deixando verter para o chão o líquido interior. Outra vez deixei-me levar pelas voltas zonzas de uma mosca que voava e que comigo partilhou o quarto e tanto nela me concentrei que lhe tomei o corpo deixando de estar deitado e voava como insecto. Após ver a segunda coisa e enquanto me apronto para o pequeno-almoço, tenho o costumeiro hábito de fazer uma espécie de jogos mentais desde a associação de palavras (casa lembra janela, janela lembra vidro, vidro lembra reflexo, reflexo lembra relva, relva lembra jardim, jardim lembra árvore, árvore lembra folhas, folhas lembra maçã, maçã lembra vermelho... E assim por diante). Outro jogo que costumo fazer é dizer o alfabeto de vinte e seis letras e levantar uma mão (alternadamente a esquerda e a direita) de cada vez que digo uma letra. Por exemplo, A (levanto a mão direita) B (levanto a mão esquerda) C (a direita) D (a esquerda) E (direita) F (esquerda) G (direita) H (esquerda) I (direita) J (esquerda) K (direita) L (esquerda) M (direita) N (esquerda) O (direita) P (esquerda) Q (direita) R (esquerda) S (direita) T (esquerda) U (direita) V (esquerda) W (direita) X (esquerda) Y (direita) Z (esquerda). Costumo também dizer palavras ao acaso, mas tirando-lhes (também ao acaso) algumas letras. Costu bém di pala a caso, ma tindo-e (tam a so) gum tras. Depois isolo as letras que sobraram: mo tam zer vras o a, s ra-lh (bém o aca) alas le. Há até dias em que fico todo o tempo em que me apronto a tentar criar um destes jogos, algumas vezes sem o conseguir. Não sei se a Rapariga que Bate à Porta sabe disto, nem sei se gostaria que soubesse, pois iria, certamente originar a pergunta Então senhor Outra, que jogo fez hoje? enquanto me alimento do pequeno-almoço. Eu contratei-a apenas para os afazeres da casa (limpeza e cozinha) nem alojamento lhe dou, entra todos os dias de manhã e sai todos os dias à noite. O serviço de despertar toc toc toc é de sua criação. Concluiu que me deve acordar todas as manhãs à mesma hora. Já lhe disse que não há necessidade de o fazer, mas ela insiste em continuar. Pois bem, faça-o. Também não a contratei para conversar comigo mas ela conversa. Costumamos dialogar. Um fala e o outro ouve, um pergunta e o outro responde. Em vez de lhe dar alojamento, dou-lhe alimento. Alimenta-se sempre aqui em casa e senta-se sempre no mesmo lugar da mesa que é aquele que não me é destinado. É frequente alimentarmo-nos em simultâneo e ela também fala bastante, talvez tenha palavras em demasia ou as palavras não se segurem dentro do seu corpo. Mas há algo que me agrada nos pequenos-almoços que prepara. São uns pãezinhos que compra e que cuidadosamente coloca num prato para meu deleite enquanto bebo o leite, o café e os variados doces e compotas e às vezes alguma extravagância como uns bolinhas especiais de fabrico próprio que ela cuida bastante para que sejam tirados do forno com o tempo de cozedura exacto e medido ao segundo porque, diz a Rapariga Só assim se tornam supremos no sabor e são ainda servidos mornos porque, diz a Rapariga Só assim se tornam supremos no sabor. Acho que é uma receita qualquer que descobriu entre o livro de receitas da Mãe que costuma cozinhar correntemente, uma senhora que não conheço pessoalmente mas que abundantes e excessivas vezes é assunto de conversa durante as refeições, A minha Mãe isto ou A minha Mãe aquilo e ainda aqueloutro dalém. E perde-se bastante quando fala de lugares, descreve-os minuciosamente, o que está onde, quantas cores e quais existem, quem estava e onde, quem faltava e porque faltava, quando aconteceu, as pedras e as árvores e poços das imediações, pássaros e cães e outras espécies e por aí fora e demais coisas que lá existem. E quando as conta, as suas curtas e rápidas viagens são assunto para muitas refeições, como os episódios de uma série televisiva, daqueles que continuam de uns para os outros. Muitas vezes a mesma cena atravessa várias refeições. Sim, sim, digo-lhe eu ou Pois, pois, porque se lhe fizer uma qualquer pergunta sobre a situação que descreve, é provável que essa pergunta dê origem a umas tantas outras situações e descrições e ao Isso que diz lembra-me outra coisa, que arrasta consigo assunto para mais umas tantas refeições. Remeto-me, por isso, ao Sim, sim e ao Pois, pois e há mesmo uma exigência na manutenção desses dois termos (o sim e o pois) pois se lhe digo Que interessante, a rapariga interrompe subitamente a história e pergunta-me Porque acha interessante, senhor Outra? situação que me obriga a responder largamente visto que ela não se contenta com um É interessante porque tal e tal e tal e porque isto ou aquilo e por aí fora, porque se lhe respondo, a conversa aumenta consideravelmente de tamanho e atravessa ainda mais refeições do que aquelas que seria de prever. Mantenho a preferência no pois que é o mais neutro dos termos aplicáveis numa situação destas em que o pois tem simplesmente o mesmo valor de Estou a ouvir-te. E quando termino a minha refeição e a rapariga deixa uma frase a meio, continua essa mesma frase na refeição seguinte começando-a exactamente onde parou, que é um aspecto que acontece bastante nas suas refeições, as coisas ficarem de uma para a outra, seja a frase que ficou inacabada, seja a carne ou o peixe ou as batatas que não foram terminadas por a quantidade de comida ingerida ter já sido suficiente, seja o sumo ou o vinho ou a água não totalmente despejado do copo, seja o bocado sobrado do pão, a peça de fruta não terminada, tudo é visto na mesa da refeição seguinte. Creio que foi um hábito que aprendeu com a Mãe, o de nada desperdiçar. Chega a aproveitar as migalhas de pão, bolo e similares espalhadas sobre a mesa, junta-as num pequeno saco de pano bordado à mão para o efeito e leva-as para o parque objectivando reespalha-las aos pássaros que por lá andam e voam, que já a conhecem e reúnem-se e preparam sempre um grande festim, com o senão daquelas poucas migalhas, ainda que acumuladas de dois ou três dias, não sejam suficientes para alimentar toda a passarada, por isso há outras pessoas que espalham e atiram migalhas e pedaços de pão e bolo por forma a alimentar todos eles e são pessoas que já se conhecem e conhecem-se dali mesmo de um Olá vizinha, como vai? ou de um Olá colega, mas não digo que todos os dias se encontrem à mesma hora, preferem fazê-lo a diferentes horas, nem sei se cada uma delas terá uma hora certa para o fazer e duvido também que as aves prefiram comer a este ou àquele momento do dia, pois quando se trata de alimento todas elas surgem de todos os lados, umas de lá, outras de cá, umas dalém, outras d'aquém e mesmo quando constroem o ninho aterram para que recebam a comida. O Inquilino do Lado, meu vizinho desde sempre, resolveu tomar o seu pequeno-almoço comigo em minha casa. Vi-o com espanto a bater à minha porta a um momento do dia pouco próprio para o fazer, mas o certo é que bateu bateu e a Rapariga que Bate à Porta perguntou Quem é? e ele respondeu É o Inquilino do Lado. A porta foi aberta tornando-se ponto de penetração no meu lar facilitando a presença do meu vizinho no seu interior. Sei como se processou esta cena porque estava já a caminho da mesa de refeições e ouvi tudo o que disseram, o que quer dizer que estava suficientemente próximo para conseguir ouvir, pois certo seria nada escutar se me encontrasse mais longe, mas o suficiente para nada escutar, enquanto a uma distância intermédia entre o longe e o perto talvez conseguisse ouvir metade da cena. Mas o certo é que o Inquilino do Lado entrou, viu-me e aproximou-se de mim livrando-se de um Bom dia, senhor Outra. Como está? Como não podia ignorá-lo, fingindo que o não vi, fui obrigado a retribuir aquele cumprimento matinal dizendo-lhe Bom dia, rapidamente seguido de Não o esperava ver aqui a estas horas (nem a nenhumas outras) mas já não me lembro que resposta se soltou de si porque isto aconteceu há algum tempo e não costumo decorar as respostas que os vizinhos me dão e a única coisa que me lembro desse arrastado pequeno-almoço foi uma conversa semi-dialogada sobre as mulheres que deitam migalhas aos pássaros e há até um ponto central no parque que é o local onde as migalhas são doadas e todas as mulheres sabem já que aquela é a mesa das aves e por isso aquele é não só o ponto de encontro entre elas, como também o ponto de união entre humanos e aves e claro que outros animais como as formigas também lá vão receber e muitas delas devem, acompanhadas da migalha que transportam entre as mandíbulas, servir de alimento a um pássaro. Não creio que hoje haja os tais bolinhos especiais pois não lhes sinto o cheiro, mas talvez haja os pãezinhos que são saborosos, não sei também onde a Rapariga que Bate à Porta guarda o livro de receitas e raramente sei quando é dia de comer pãezinhos, não sei também quais as compotas e doces que são colocados na superfície da mesa, sobre tudo isso apenas sei que tudo o que lá há é mantido no interior de um prato redondo. Esses pratos são fabricados à mão na olaria do tio da Rapariga que Bate à Porta que faz sempre pratos redondos porque, diz ele, Os quadrados não se vendem. Não que o sistema digestivo se importe, dê atenção, ou incomode de deglutir e digerir alimentos provindos de pratos quadrados e até creio que para os dentes tanto se lhe faz ser o prato redondo ou quadrado. Soube que esse mesmo tio tem um sobrinho que costumar acentuar a última sílaba de cada palavra. Ele diz Tarântu-lââ, lá está a tarântu-lââ. Também não conheço o tio ou o sobrinho, só sei que existem porque a Rapariga que Bate à Porta fala neles, O meu tio fez uns pratos redondos muito bonitos e têm florzinhas pequeninas azuis e brancas o prato é da cor do barro mas são muito bonitos o senhor Outra haveria de gostar deles e de comer deles vou trazer-lhe um um dia que me lembre e deram algum trabalho a fazer porque foi uma senhora que fez ao meu Tio uma encomenda de pratos e os pratos tinham que ter uma medida especial tinham que ter não sei quantos centímetros de diâmetro porque se fossem maiores ou mais pequenos não ficavam bem na mesa porque eram vários pratos que a mesa ia ter e se fossem maiores poderiam não caber todos e se fossem mais pequenos não ficariam bem porque os talheres são grandes e ficariam maiores do que os pratos na mesa e por isso o meu tio teve um grande trabalho para que os pratos depois de cozidos ficassem com o tamanho certo e as florzinhas também foram um pedido da senhora que lhe disse Eu quero que os pratos tenham florzinhas azuis e brancas porque a minha toalha é azul e branca os talheres brancos e os copos azuis e assim fica tudo igual e lembro-me que estava a chover no dia em que os pratos ficaram prontos. Do Sobrinho a Rapariga que Bate à Porta não fala muito, muito pouco fala até. Parece-me até que estas três pessoas são os únicos familiares que a Rapariga que Bate à Porta me fala. Se seguirmos uma ordem de importância temos, em primeiro lugar a Mãe, pela maneira como a Rapariga abocanha vorazmente as palavras sempre que dela me informa, em segundo lugar o Tio que se torna assunto de conversa sempre que necessário e, por fim, o Sobrinho que é quase uma figura inexistente. Aquela vez em que os pássaros faltavam na sua maior parte, todas as mulheres perguntavam Onde estão os pássaros? Por que não vêm os pássaros? mas, por fim, lá apareceram, deviam estar. Espero que hoje não me fale do Tio ou da Mãe ou do Sobrinho, não me apetece saber deles. Prefiro saber o que ela fez ontem depois de sair daqui ou hoje antes de chegar, ainda que, quando abordados, esses assuntos se tornem desinteressantes e eu não quero saber o que fez ontem ou hoje. Há qualquer coisa planeada para hoje mas não me lembro o quê, talvez a Rapariga saiba, ela costuma saber estas coisas, onde vou, o que preciso de fazer. Até me diz sem eu perguntar Hoje, senhor Outra, tem uma reunião com o senhor tal em tal sítio e a tal hora. Não se esqueça de levar isto, isto e aquilo. E há sempre esta coisa que se esquece, veja lá não se esqueça desta vez. Ela diz-me quando eu descer para o pequeno-almoço.
Dez mulheres foram à fonte
Genevieva foi à fonte colheu a água e voltou. Antónia foi à fonte colheu a água e voltou. Anacleta foi à fonte colheu a água e voltou. Asdrubalina foi à fonte colheu a água e voltou. Gualdina foi à fonte colheu a água e voltou. Guinermina foi à fonte colheu a água e voltou. Elierta foi à fonte colheu a água e voltou. Silávia foi à fonte colheu a água e voltou. Lumília foi à fonte colheu a água e voltou. Lifórnia foi à fonte colheu a água e voltou.
Chegada a casa e tendo Genevieva a sua água para o cântaro vazada tornou-se de olhos alerta qual coelho assustado, estando no seu quintal um burro a comer-lhe as couves, um que jamais tinha por ali aparecido, sendo muitos os que por lá haviam mas nenhum como aquele que lhe surgiu. Genevieva apressada e vendo parte da próxima colheita hortícola açambarcada por aquele representante da espécie Equus asinus tenta impedir que mais uma das suas couves seja presente no seu sistema digestivo, seu do burro. Nesse sentido, de pá de cavar entre mãos fá-la gesticular no ar na tentativa de demover o dito animal colocando-o do lado de fora da sua horta. De dentes arreganhados, o burro parece zombar daquele ser mutante, qualquer coisa híbrida entre o Homem (ou, neste caso, a mulher) e a pá, tendo, na sua perspectiva de asno, tomado a certeza de que a pá é a impulsionadora do movimento vorazmente cambaleante que o ser abaixo dela apresenta na sua investida contra si. Aproximando-se Genevieva e a sua pá do burro e este, vendo que o tal ser se avizinhava rápida e ameaçadoramente da sua integridade física, iniciou o processo de se exceptuar do espaço que ocupava na companhia da sua couve, largando-a de imediato de maneira a que o seu peso de fuga fosse menor permitindo-lhe escapar mais velozmente alcançando, assim, o limiar do terreno agrícola. Genevieva, entretanto, havia parado a perseguição logo que percebeu que o burro se pusera em fuga mas, apesar disso, continuava, agora sem cambalear, a gesticular a pá como se quisesse agredir os demais seres vivos das redondezas, nomeadamente os insectos voadores. O burro, já estacionado no lado exterior à horta, olhava para trás tentando compreender a razão do mutante estar parado mantendo-se gesticulante a parte superior do ser. Esta situação colocou em causa a sua teoria anterior que afirmava ser a pá a impulsionadora do movimento, já que se continuava a movimentar, permanecendo agora a mulher quieta no mesmo lugar.
Chegada a casa e tendo Antónia a sua água para o cântaro vazada tornou-se atenta ao que lá vinha. Era o aguadeiro da aldeia fugindo com quantas pernas tinha de uma manada bovina que o seguia soltando mugidos simultâneos. Do aguadeiro nada se ouvia apesar de se vir a esgoelar com todas as forças gritando para que o salvassem ou, em alternativa, que soltassem de trás de si todos aqueles bois apressados. Mantendo, no entanto, a dignidade, mantiveram-se equilibradamente oscilantes sobre os seus ombros os receptáculos próprios para o transporte de água estando, ao mesmo tempo, a evitar qualquer diminuição da quantidade inicial de líquido sob a forma de pingadelas formadas pelo constante agitar dos recipientes. Em veloz correria, homem e bovinos assumaram-se da praça central daquele lugarejo habitacional, lugar onde se reúnem as gentes e se conversa sobre as mais variadas coisas. E lá vinha o aguadeiro arfando até mais não poder seguido pelo gado mugindo para todos os lados. De sobressalto foram colocados os demais habitantes da aldeia que, sem saber que reacção deveriam ter foram conversando sobre as várias situações susceptíveis de suprimir aquele incidente. Uns diziam que se deveria salvar os bois, outros diziam que deveriam abandonar a praça abrindo caminho (e salvando-se) para que o aguadeiro e os animais pudessem trespassar o largo e outros diziam que se deveria salvar o homem. Não chegando, porém, a nenhuma conclusão, rapidamente foram ladeados pelo aguadeiro, acompanhando-o na corrida tendo como objectivo excluírem-se das frontes dos bois seguidores.
Chegada a casa e tendo Anacleta a sua água para o cântaro vazada tornou-se imprudente quanto à forma de abrir a porta da capoeira, fugindo-lhe para os campos todas as cinquenta e nove galinhas que, em grande algazarra, se dirigiram para os mais variados sítios do interior da sua propriedade agrícola, cacarejando e largando penas por tudo quanto era sítio. Anacleta mantendo-se inerte tomou-se de dúvidas quanto à melhor acção a desenvolver para uma calamidade como aquela. Concluiu por fim ser melhor a captura isolada de cada uma das aves ao invés de uni-las em rebanho como se de ovelhas se tratassem, tendo, para isso, que perseguir ou capturar cada cacarejante guiando-a ou depositando-a em direcção à ou na capoeira. Socorrendo-se da vassoura que por ali estava objectivou a primeira galinha que defronte de si perfilava, servindo-se do referido instrumento para conduzi-la, correndo atrás de si, ao local que a ela se destinava, à medida que vocalizava com o auxílio das suas capacidades vocais alguns sons que mantiveram na rota a fugidia ave. Escusado será dizer que correndo o percurso entre o ponto A (sendo este a localização inicial da galinha) e o ponto B (a capoeira) foram sendo afugentadas as restantes cinquenta e oito que tinham encontrado um ponto favorável para esgaravatar o solo, tentando a capturada correr para um qualquer lado excepto o correcto, defeito, aliás, corrigido pelo hábil manejo de vassoura que Anacleta demonstrava.
Chegada a casa e tendo Asdrubalina a sua água para o cântaro vazada tornou-se de sentidos vigilantes qual mocho no topo de uma árvore, ao perceber que a despensa onde guarda os queijos que confecciona tinha sido alvo de cobiça por parte de um qualquer ser vivo indefinível. Olhando fincadamente para o interior da mencionada divisão do seu lar, cuidou para abater com o auxílio de uma saca de batatas meia cheia, qualquer alvo que se movesse e que buscasse esconderijo num qualquer canto obscuro. Colocou-se igualmente em silêncio, fazendo uso da exclusão do seu sistema respiratório, para que pudesse auferir de qualquer ruído impróprio ao seu compartimento para arrumação de víveres lácteos. De saca de batatas sobre o ombro direito e pegando-lhe na extremidade com ambas as mãos, dispôs-se em posição de ataque guardando-se vigilante a qualquer movimento ou rumor detectado. Dir-se-ia que Asdrubalina havia sido transformada em pedra de tão gélida expressão lhe cobrir o corpo e nem mesmo a saca parecia viva, tendo-lhe sido passada, por contaminação, a expressão lítica demonstrada pela mulher. Notava-se igualmente a extracção do continum temporal a que ficou sujeita a despensa de queijos logo que foi activado aquele momento de tensão.
Chegada a casa e tendo Gualdina a sua água para o cântaro vazada tornou-se de pressas acelaradas ao descobrir alguns exemplares do seu extenso rebanho ovino plantados nos compartimentos de sua casa. De braços pelo ar, agitando as variadas moléculas de oxigénio e azoto, Gualdina tropeçava nela própria ao tentar expelir cada uma das ovelhas que haviam já executado variadas alterações em alguns dos móveis presentes. Tão gigantesca era a algazarra levantada que vizinhos houveram que acorrerram pensando encontrar a citada mulher tombada por alguma calamidade se ter acometido do seu lar. Tal não foi o espanto de todos eles ao presenciar Gualdina a perseguir as ovelhas e as ovelhas em perseguição a Gualdina e do espanto inicial pouco restou quando o grupo ovino investiu toda a sua energia contra os humanos entretanto chegados. Com o sistema de fuga activado em cada um dos vizinhos, foram-se trocando palavras objectivando salvar Gualdina do ponto em que se encontrava, estando esta em confronto aberto com um pequeno grupo de ovelhas.
Chegada a casa e tendo Guinermina a sua água para o cântaro vazada tornou-se constatada, devido à sua natureza organizada, esquemática e sistematizada, estarem os potes de compota por ela armazenados de arrumação dissolvida por causas ainda estranhas. Forçada a questionar-se sobre tão visível alteração, lembrou-se de variadíssimas maneiras através das quais pudesse ser atingida tão ingrata formação de potes de compota, excluindo-se de qualquer uma dessas visto se ter como modelo de disposição conveniente das coisas para qualquer ser vivo falante ou não. Tornado acto este o de Guinermina normal o de se isentar de situações de dispersão por desarranjo, procurou culpados que a tivessem substituído em tão vil acção, iniciando uma demanda com esse objectivo em mente. Saindo abruptamente de casa, não sem antes abrir a porta seguido de um encerramento violento da mesma perfazendo tal estrondo que até o sino da igreja oscilou com tão vigorosa deslocação de ar, organizou um tenaz inquérito a todos os seres vivos dos falantes e dos outros objectivando apontar o culpado.
Chegada a casa e tendo Elierta a sua água para o cântaro vazada tornou-se forreta ao perceber que o conteúdo da sua conta bancária atravessava um momento de depressão. Visivelmente aterrada pelo regime dietético auferido pelas suas poupanças, fez de súbito aumentar o preço de venda das mercadorias agrícolas, géneros alimentícios de que Elierta era detentora, obtendo mesmo o monopólio desse sector. Indo ao mercado poder-se-ia observar todo o espólio alimentar apresentado nas diversas bancas, todo ele provindo das hortas de Elierta. Tal não foi o espanto de todos quando foi dado conta que os valores a pagar por cada batata, cebola ou outros alimentos, subira consideravelmente desde o dia anterior. Ainda para mais, andando Elierta de balde na mão servindo este para pressionar os diversos habitantes a oferecer qualquer dádiva monetária por ser ela a fornecedora dos comes e dos bebes da aldeia, situação que reclama ser de pleno direito já que é detentora do argumento de que pela ausência da produção alimentícia das suas hortas e demais fornecimento gádico, nada teria a aldeia para se alimentar, entrando em época de fome.
Chegada a casa e tendo Silávia a sua água para o cântaro vazada tornou-se ausente devido à inundação vinícola que grassava na sua adega. Não fosse um seu vizinho avisá-la que decorria uma enchente a partir dos seus barris de vinho, Silávia tinha permanecido nos costumeiros afazeres da vida rural. E tal foi a enxurrada que, da sua adega, o vinho percorreu as variadas ruas da aldeia indo visitar os lares de alguns dos seus habitantes alagando alcoolicamente tudo quanto se lhe atravessava no caminho. De súbito, os proprietários dessas habitações saíram à rua pretendendo tomar conhecimento sobre o motivo que levou a que a aldeia fosse alagada de tão rara forma de alagamento, sendo esta não de água mas de vinho. E tanto era esse vinho que ameaçava mesmo afogar um habitante desprevenido que ocupava o seu posto usual à entrada da taberna, local em que se colocava após se tornar a si próprio alvo de descomunal bebedeira contraída no interior do dito estabelecimento de bebes. Pensou esse habitante chegar ao paraíso ao verificar tamanha ocorrência em forma do seu combustível predilecto quando se encontrava ele num cambaleante e oscilante sentar numa saliência da parede que ali existia.
Chegada a casa e tendo Lumília a sua água para o cântaro vazada tornou-se fugidia ao constatar que o seu peru se servia da janela com o intuito de perscrutar o interior da sua casa. Ao ver tão estranha carantonha espreitando para si do lado de fora do vidro, Lumília decidiu-se por iniciar fastidiosa corrida tendo como propósito a fuga do peru por ter este surgido à sua janela levando, com isso, a referida mulher ao limiar do susto. Tornando-se a mesma mulher indecisa quanto ao lado para onde se escoar, tocava violentamente nos variados objectos e móveis que constituíam o recheio de sua casa. O peru, fazendo-se atónito quanto à cena que percorria em frente de si, mas do lado de lá do vidro, não hesitou em vocalizar alguns sons, não se percebendo estes se de contentamento, se de aviso ou se de alguma outra coisa. Ouvindo a sua emissão de voz e não o vendo, Lumília tornou-se ainda mais fugidia pensando estar a ave no seu encalço e aproximando-se cada vez mais mas, apesar disso, a mulher foi tentando descobrir um ponto de exclusão para se colocar no exterior de sua casa já que se encontrava em fuga aterrorizada do exteriorizado pássaro, pensando esta achar-se esse no interior.
Chegada a casa e tendo Lifórnia a sua água para o cântaro vazada tornou-se perseguidora ao ver o seu bode a seguir o seu pato a seguir o seu frango. Ainda que tal perseguição se tenha originado por causas desconhecidas para Lifórnia mas talvez menos desconhecidas para os restantes elementos, a mulher não hesitou em colocar-se em posição de seguidora tendo o bode como primeiro alvo a ser capturado. Teria sido um pouco mais fácil se os animais seguissem um processo de fuga uns dos outros assente numa trajectória mais ou menos definida, mas tendo pela frente o mais irregular dos percursos de escape e não sabendo de antemão qual seria a trajectória a seguir, Lifórnia teve alguma dificuldade em perceber qual a melhor maneira de proceder para poder dar por concluída tão disparatada fuga. Por isso, Lifórnia parou um pouco para analisar a situação e concluiu que quem cria o trajecto é o frango já que é o primeiro da fila e para onde ele curva o pato segue-o imitando-o e logo depois o bode que, seguindo o pato, o imita na curva que este imitou do frango. Ao descobrir tal estratagema, Lifórnia colocou-se num ponto em que conseguisse barrar o caminho ao frango pensando que, com isso, iria pôr fim à correria que se mostrava sobre as suas plantações de vegetação alimentar. Tendo o frango percebido o ardil montado pela mulher, escusou-se de se adiantar mais no terreno fazendo já ali uma apertada curva para a sua direita, esta, por sua vez, copiada pelo pato e pelo bode.
Chegada a casa e tendo Genevieva a sua água para o cântaro vazada tornou-se de olhos alerta qual coelho assustado, estando no seu quintal um burro a comer-lhe as couves, um que jamais tinha por ali aparecido, sendo muitos os que por lá haviam mas nenhum como aquele que lhe surgiu. Genevieva apressada e vendo parte da próxima colheita hortícola açambarcada por aquele representante da espécie Equus asinus tenta impedir que mais uma das suas couves seja presente no seu sistema digestivo, seu do burro. Nesse sentido, de pá de cavar entre mãos fá-la gesticular no ar na tentativa de demover o dito animal colocando-o do lado de fora da sua horta. De dentes arreganhados, o burro parece zombar daquele ser mutante, qualquer coisa híbrida entre o Homem (ou, neste caso, a mulher) e a pá, tendo, na sua perspectiva de asno, tomado a certeza de que a pá é a impulsionadora do movimento vorazmente cambaleante que o ser abaixo dela apresenta na sua investida contra si. Aproximando-se Genevieva e a sua pá do burro e este, vendo que o tal ser se avizinhava rápida e ameaçadoramente da sua integridade física, iniciou o processo de se exceptuar do espaço que ocupava na companhia da sua couve, largando-a de imediato de maneira a que o seu peso de fuga fosse menor permitindo-lhe escapar mais velozmente alcançando, assim, o limiar do terreno agrícola. Genevieva, entretanto, havia parado a perseguição logo que percebeu que o burro se pusera em fuga mas, apesar disso, continuava, agora sem cambalear, a gesticular a pá como se quisesse agredir os demais seres vivos das redondezas, nomeadamente os insectos voadores. O burro, já estacionado no lado exterior à horta, olhava para trás tentando compreender a razão do mutante estar parado mantendo-se gesticulante a parte superior do ser. Esta situação colocou em causa a sua teoria anterior que afirmava ser a pá a impulsionadora do movimento, já que se continuava a movimentar, permanecendo agora a mulher quieta no mesmo lugar.
Chegada a casa e tendo Antónia a sua água para o cântaro vazada tornou-se atenta ao que lá vinha. Era o aguadeiro da aldeia fugindo com quantas pernas tinha de uma manada bovina que o seguia soltando mugidos simultâneos. Do aguadeiro nada se ouvia apesar de se vir a esgoelar com todas as forças gritando para que o salvassem ou, em alternativa, que soltassem de trás de si todos aqueles bois apressados. Mantendo, no entanto, a dignidade, mantiveram-se equilibradamente oscilantes sobre os seus ombros os receptáculos próprios para o transporte de água estando, ao mesmo tempo, a evitar qualquer diminuição da quantidade inicial de líquido sob a forma de pingadelas formadas pelo constante agitar dos recipientes. Em veloz correria, homem e bovinos assumaram-se da praça central daquele lugarejo habitacional, lugar onde se reúnem as gentes e se conversa sobre as mais variadas coisas. E lá vinha o aguadeiro arfando até mais não poder seguido pelo gado mugindo para todos os lados. De sobressalto foram colocados os demais habitantes da aldeia que, sem saber que reacção deveriam ter foram conversando sobre as várias situações susceptíveis de suprimir aquele incidente. Uns diziam que se deveria salvar os bois, outros diziam que deveriam abandonar a praça abrindo caminho (e salvando-se) para que o aguadeiro e os animais pudessem trespassar o largo e outros diziam que se deveria salvar o homem. Não chegando, porém, a nenhuma conclusão, rapidamente foram ladeados pelo aguadeiro, acompanhando-o na corrida tendo como objectivo excluírem-se das frontes dos bois seguidores.
Chegada a casa e tendo Anacleta a sua água para o cântaro vazada tornou-se imprudente quanto à forma de abrir a porta da capoeira, fugindo-lhe para os campos todas as cinquenta e nove galinhas que, em grande algazarra, se dirigiram para os mais variados sítios do interior da sua propriedade agrícola, cacarejando e largando penas por tudo quanto era sítio. Anacleta mantendo-se inerte tomou-se de dúvidas quanto à melhor acção a desenvolver para uma calamidade como aquela. Concluiu por fim ser melhor a captura isolada de cada uma das aves ao invés de uni-las em rebanho como se de ovelhas se tratassem, tendo, para isso, que perseguir ou capturar cada cacarejante guiando-a ou depositando-a em direcção à ou na capoeira. Socorrendo-se da vassoura que por ali estava objectivou a primeira galinha que defronte de si perfilava, servindo-se do referido instrumento para conduzi-la, correndo atrás de si, ao local que a ela se destinava, à medida que vocalizava com o auxílio das suas capacidades vocais alguns sons que mantiveram na rota a fugidia ave. Escusado será dizer que correndo o percurso entre o ponto A (sendo este a localização inicial da galinha) e o ponto B (a capoeira) foram sendo afugentadas as restantes cinquenta e oito que tinham encontrado um ponto favorável para esgaravatar o solo, tentando a capturada correr para um qualquer lado excepto o correcto, defeito, aliás, corrigido pelo hábil manejo de vassoura que Anacleta demonstrava.
Chegada a casa e tendo Asdrubalina a sua água para o cântaro vazada tornou-se de sentidos vigilantes qual mocho no topo de uma árvore, ao perceber que a despensa onde guarda os queijos que confecciona tinha sido alvo de cobiça por parte de um qualquer ser vivo indefinível. Olhando fincadamente para o interior da mencionada divisão do seu lar, cuidou para abater com o auxílio de uma saca de batatas meia cheia, qualquer alvo que se movesse e que buscasse esconderijo num qualquer canto obscuro. Colocou-se igualmente em silêncio, fazendo uso da exclusão do seu sistema respiratório, para que pudesse auferir de qualquer ruído impróprio ao seu compartimento para arrumação de víveres lácteos. De saca de batatas sobre o ombro direito e pegando-lhe na extremidade com ambas as mãos, dispôs-se em posição de ataque guardando-se vigilante a qualquer movimento ou rumor detectado. Dir-se-ia que Asdrubalina havia sido transformada em pedra de tão gélida expressão lhe cobrir o corpo e nem mesmo a saca parecia viva, tendo-lhe sido passada, por contaminação, a expressão lítica demonstrada pela mulher. Notava-se igualmente a extracção do continum temporal a que ficou sujeita a despensa de queijos logo que foi activado aquele momento de tensão.
Chegada a casa e tendo Gualdina a sua água para o cântaro vazada tornou-se de pressas acelaradas ao descobrir alguns exemplares do seu extenso rebanho ovino plantados nos compartimentos de sua casa. De braços pelo ar, agitando as variadas moléculas de oxigénio e azoto, Gualdina tropeçava nela própria ao tentar expelir cada uma das ovelhas que haviam já executado variadas alterações em alguns dos móveis presentes. Tão gigantesca era a algazarra levantada que vizinhos houveram que acorrerram pensando encontrar a citada mulher tombada por alguma calamidade se ter acometido do seu lar. Tal não foi o espanto de todos eles ao presenciar Gualdina a perseguir as ovelhas e as ovelhas em perseguição a Gualdina e do espanto inicial pouco restou quando o grupo ovino investiu toda a sua energia contra os humanos entretanto chegados. Com o sistema de fuga activado em cada um dos vizinhos, foram-se trocando palavras objectivando salvar Gualdina do ponto em que se encontrava, estando esta em confronto aberto com um pequeno grupo de ovelhas.
Chegada a casa e tendo Guinermina a sua água para o cântaro vazada tornou-se constatada, devido à sua natureza organizada, esquemática e sistematizada, estarem os potes de compota por ela armazenados de arrumação dissolvida por causas ainda estranhas. Forçada a questionar-se sobre tão visível alteração, lembrou-se de variadíssimas maneiras através das quais pudesse ser atingida tão ingrata formação de potes de compota, excluindo-se de qualquer uma dessas visto se ter como modelo de disposição conveniente das coisas para qualquer ser vivo falante ou não. Tornado acto este o de Guinermina normal o de se isentar de situações de dispersão por desarranjo, procurou culpados que a tivessem substituído em tão vil acção, iniciando uma demanda com esse objectivo em mente. Saindo abruptamente de casa, não sem antes abrir a porta seguido de um encerramento violento da mesma perfazendo tal estrondo que até o sino da igreja oscilou com tão vigorosa deslocação de ar, organizou um tenaz inquérito a todos os seres vivos dos falantes e dos outros objectivando apontar o culpado.
Chegada a casa e tendo Elierta a sua água para o cântaro vazada tornou-se forreta ao perceber que o conteúdo da sua conta bancária atravessava um momento de depressão. Visivelmente aterrada pelo regime dietético auferido pelas suas poupanças, fez de súbito aumentar o preço de venda das mercadorias agrícolas, géneros alimentícios de que Elierta era detentora, obtendo mesmo o monopólio desse sector. Indo ao mercado poder-se-ia observar todo o espólio alimentar apresentado nas diversas bancas, todo ele provindo das hortas de Elierta. Tal não foi o espanto de todos quando foi dado conta que os valores a pagar por cada batata, cebola ou outros alimentos, subira consideravelmente desde o dia anterior. Ainda para mais, andando Elierta de balde na mão servindo este para pressionar os diversos habitantes a oferecer qualquer dádiva monetária por ser ela a fornecedora dos comes e dos bebes da aldeia, situação que reclama ser de pleno direito já que é detentora do argumento de que pela ausência da produção alimentícia das suas hortas e demais fornecimento gádico, nada teria a aldeia para se alimentar, entrando em época de fome.
Chegada a casa e tendo Silávia a sua água para o cântaro vazada tornou-se ausente devido à inundação vinícola que grassava na sua adega. Não fosse um seu vizinho avisá-la que decorria uma enchente a partir dos seus barris de vinho, Silávia tinha permanecido nos costumeiros afazeres da vida rural. E tal foi a enxurrada que, da sua adega, o vinho percorreu as variadas ruas da aldeia indo visitar os lares de alguns dos seus habitantes alagando alcoolicamente tudo quanto se lhe atravessava no caminho. De súbito, os proprietários dessas habitações saíram à rua pretendendo tomar conhecimento sobre o motivo que levou a que a aldeia fosse alagada de tão rara forma de alagamento, sendo esta não de água mas de vinho. E tanto era esse vinho que ameaçava mesmo afogar um habitante desprevenido que ocupava o seu posto usual à entrada da taberna, local em que se colocava após se tornar a si próprio alvo de descomunal bebedeira contraída no interior do dito estabelecimento de bebes. Pensou esse habitante chegar ao paraíso ao verificar tamanha ocorrência em forma do seu combustível predilecto quando se encontrava ele num cambaleante e oscilante sentar numa saliência da parede que ali existia.
Chegada a casa e tendo Lumília a sua água para o cântaro vazada tornou-se fugidia ao constatar que o seu peru se servia da janela com o intuito de perscrutar o interior da sua casa. Ao ver tão estranha carantonha espreitando para si do lado de fora do vidro, Lumília decidiu-se por iniciar fastidiosa corrida tendo como propósito a fuga do peru por ter este surgido à sua janela levando, com isso, a referida mulher ao limiar do susto. Tornando-se a mesma mulher indecisa quanto ao lado para onde se escoar, tocava violentamente nos variados objectos e móveis que constituíam o recheio de sua casa. O peru, fazendo-se atónito quanto à cena que percorria em frente de si, mas do lado de lá do vidro, não hesitou em vocalizar alguns sons, não se percebendo estes se de contentamento, se de aviso ou se de alguma outra coisa. Ouvindo a sua emissão de voz e não o vendo, Lumília tornou-se ainda mais fugidia pensando estar a ave no seu encalço e aproximando-se cada vez mais mas, apesar disso, a mulher foi tentando descobrir um ponto de exclusão para se colocar no exterior de sua casa já que se encontrava em fuga aterrorizada do exteriorizado pássaro, pensando esta achar-se esse no interior.
Chegada a casa e tendo Lifórnia a sua água para o cântaro vazada tornou-se perseguidora ao ver o seu bode a seguir o seu pato a seguir o seu frango. Ainda que tal perseguição se tenha originado por causas desconhecidas para Lifórnia mas talvez menos desconhecidas para os restantes elementos, a mulher não hesitou em colocar-se em posição de seguidora tendo o bode como primeiro alvo a ser capturado. Teria sido um pouco mais fácil se os animais seguissem um processo de fuga uns dos outros assente numa trajectória mais ou menos definida, mas tendo pela frente o mais irregular dos percursos de escape e não sabendo de antemão qual seria a trajectória a seguir, Lifórnia teve alguma dificuldade em perceber qual a melhor maneira de proceder para poder dar por concluída tão disparatada fuga. Por isso, Lifórnia parou um pouco para analisar a situação e concluiu que quem cria o trajecto é o frango já que é o primeiro da fila e para onde ele curva o pato segue-o imitando-o e logo depois o bode que, seguindo o pato, o imita na curva que este imitou do frango. Ao descobrir tal estratagema, Lifórnia colocou-se num ponto em que conseguisse barrar o caminho ao frango pensando que, com isso, iria pôr fim à correria que se mostrava sobre as suas plantações de vegetação alimentar. Tendo o frango percebido o ardil montado pela mulher, escusou-se de se adiantar mais no terreno fazendo já ali uma apertada curva para a sua direita, esta, por sua vez, copiada pelo pato e pelo bode.
Subscrever:
Comentários (Atom)