03/04/09

Meios de transporte que fizeram uma curva

Era uma embarcação de rio que fazia uma curva em 3000 a.C. E assim começa a história do menino que fazia uma curva a tudo quanto podia ser curvado. Contava-se naquele aglomerado populacional que morava por lá um menino que andava sempre às curvas e que era incapaz de fazer um trajecto em linha recta, mesmo quando o percurso a isso pedia. Ouvido isto, vários sacerdotes rumaram a esse aglomerado populacional. Era uma carroça que fazia uma curva em 1490. E assim começa a história do menino que fazia uma curva a tudo quanto podia ser curvado. Contava-se naquela cidade que morava por lá um menino que andava sempre às curvas e que era incapaz de fazer um trajecto em linha recta, mesmo quando o percurso a isso pedia. Ouvido isto, vários homens do Renascimento rumaram a essa cidade. Era um balão que fazia uma curva em 1782. E assim começa a história do menino que fazia uma curva a tudo quanto podia ser curvado. Era um comboio a vapor que fazia uma curva em 1860. E assim começa a história do menino que fazia uma curva a tudo quanto podia ser curvado. Era um automóvel de combustão interna que fazia uma curva em 1890. E assim começa a história do menino que fazia uma curva a tudo quanto podia ser curvado. Era um avião com propulsão a hélice que fazia uma curva em 1905. E assim começa a história do menino que fazia uma curva a tudo quanto podia ser curvado. Era um comboio eléctrico que fazia uma curva em 1920. E assim começa a história do menino que fazia uma curva a tudo quanto podia ser curvado. Era um dirigível que fazia uma curva em 1930. E assim começa a história do menino que fazia uma curva a tudo quanto podia ser curvado. Era um avião a jacto que fazia uma curva em 1950. E assim começa a história do menino que fazia uma curva a tudo quanto podia ser curvado. Era um submarino que fazia uma curva em 1952. E assim começa a história do menino que fazia uma curva a tudo quanto podia ser curvado. Era um foguetão que fazia uma curva em 1976. E assim começa a história do menino que fazia uma curva a tudo quanto podia ser curvado. Era um space shuttle que fazia uma curva em 1982. E assim começa a história do menino que fazia uma curva a tudo quanto podia ser curvado. Lá na cidade contavam que andava sempre às curvas e que era incapaz de fazer uma recta. Mal saía de casa a primeira coisa que fazia era curvar para a direita apesar de o percurso que liga a entrada do seu lar até ao elevador ser constituído por uma recta e devido a esse mesmo caminho rectilíneo, o menino via-se constantemente obrigado a embater na parede servindo esta de ponto de apoio para a execução da sua próxima curva, desta vez para a esquerda, colidindo com a parede do lado oposto e de novo nova curva para a direita e outra para a esquerda até dar entrada no elevador, ligando este meio de transporte, através de uma recta, ao exterior do seu prédio. Já lá fora, o menino continuava às curvas, para a esquerda, para a direita, para a esquerda, para a direita. As curvas que o menino faz não são sempre iguais, são umas de ângulo mais fechado do que outras dependendo da superfície em que embate para permitir o desenvolvimento do percurso andante (tais como paredes, muros, árvores, candeeiros, pessoas, etc). Ouvido isto, vários investigadores de diversas áreas do conhecimento rumaram de imediato a essa localidade tendo como objectivo o estudo desse menino. Eram tantos que se tornaram em maior número do que os habitantes da cidade. Preparou-se uma sala especial de enormes proporções para este evento e completou-se esse lugar com cadeiras, uma quantidade imensa de cadeiras. Conversa-se e teoriza-se entre os investigadores. Uns dizem que é com toda a certeza por causa disto que o menino faz curvas, outras dizem com toda a certeza que é por causa daquilo e outros ainda dizem que é. Do canto da sala levanta-se uma voz que sonoramente se exala a partir de um homem muito velho e que diz Eu concluo que o menino faz curvas porque está impossibilitado de fazer rectas. E todos ficaram boquiabertos com tão aparatosa explicação. Todos os investigadores se levantam das cadeiras em que se sentam e começam a deambular às curvas, todos a colidir com tudo e todos a colidir uns com os outros. Todos curvam os seus percursos. Tenta-se com isto experienciar a deslocação espacial do menino que faz curvas. Durante exactamente uma hora milhares de cientistas curvam. Pensa-se que a Teoria da Deriva não é aplicável num caso destes.

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