21/03/09

Dez mulheres foram à fonte

Genevieva foi à fonte colheu a água e voltou. Antónia foi à fonte colheu a água e voltou. Anacleta foi à fonte colheu a água e voltou. Asdrubalina foi à fonte colheu a água e voltou. Gualdina foi à fonte colheu a água e voltou. Guinermina foi à fonte colheu a água e voltou. Elierta foi à fonte colheu a água e voltou. Silávia foi à fonte colheu a água e voltou. Lumília foi à fonte colheu a água e voltou. Lifórnia foi à fonte colheu a água e voltou.

Chegada a casa e tendo Genevieva a sua água para o cântaro vazada tornou-se de olhos alerta qual coelho assustado, estando no seu quintal um burro a comer-lhe as couves, um que jamais tinha por ali aparecido, sendo muitos os que por lá haviam mas nenhum como aquele que lhe surgiu. Genevieva apressada e vendo parte da próxima colheita hortícola açambarcada por aquele representante da espécie Equus asinus tenta impedir que mais uma das suas couves seja presente no seu sistema digestivo, seu do burro. Nesse sentido, de pá de cavar entre mãos fá-la gesticular no ar na tentativa de demover o dito animal colocando-o do lado de fora da sua horta. De dentes arreganhados, o burro parece zombar daquele ser mutante, qualquer coisa híbrida entre o Homem (ou, neste caso, a mulher) e a pá, tendo, na sua perspectiva de asno, tomado a certeza de que a pá é a impulsionadora do movimento vorazmente cambaleante que o ser abaixo dela apresenta na sua investida contra si. Aproximando-se Genevieva e a sua pá do burro e este, vendo que o tal ser se avizinhava rápida e ameaçadoramente da sua integridade física, iniciou o processo de se exceptuar do espaço que ocupava na companhia da sua couve, largando-a de imediato de maneira a que o seu peso de fuga fosse menor permitindo-lhe escapar mais velozmente alcançando, assim, o limiar do terreno agrícola. Genevieva, entretanto, havia parado a perseguição logo que percebeu que o burro se pusera em fuga mas, apesar disso, continuava, agora sem cambalear, a gesticular a pá como se quisesse agredir os demais seres vivos das redondezas, nomeadamente os insectos voadores. O burro, já estacionado no lado exterior à horta, olhava para trás tentando compreender a razão do mutante estar parado mantendo-se gesticulante a parte superior do ser. Esta situação colocou em causa a sua teoria anterior que afirmava ser a pá a impulsionadora do movimento, já que se continuava a movimentar, permanecendo agora a mulher quieta no mesmo lugar.

Chegada a casa e tendo Antónia a sua água para o cântaro vazada tornou-se atenta ao que lá vinha. Era o aguadeiro da aldeia fugindo com quantas pernas tinha de uma manada bovina que o seguia soltando mugidos simultâneos. Do aguadeiro nada se ouvia apesar de se vir a esgoelar com todas as forças gritando para que o salvassem ou, em alternativa, que soltassem de trás de si todos aqueles bois apressados. Mantendo, no entanto, a dignidade, mantiveram-se equilibradamente oscilantes sobre os seus ombros os receptáculos próprios para o transporte de água estando, ao mesmo tempo, a evitar qualquer diminuição da quantidade inicial de líquido sob a forma de pingadelas formadas pelo constante agitar dos recipientes. Em veloz correria, homem e bovinos assumaram-se da praça central daquele lugarejo habitacional, lugar onde se reúnem as gentes e se conversa sobre as mais variadas coisas. E lá vinha o aguadeiro arfando até mais não poder seguido pelo gado mugindo para todos os lados. De sobressalto foram colocados os demais habitantes da aldeia que, sem saber que reacção deveriam ter foram conversando sobre as várias situações susceptíveis de suprimir aquele incidente. Uns diziam que se deveria salvar os bois, outros diziam que deveriam abandonar a praça abrindo caminho (e salvando-se) para que o aguadeiro e os animais pudessem trespassar o largo e outros diziam que se deveria salvar o homem. Não chegando, porém, a nenhuma conclusão, rapidamente foram ladeados pelo aguadeiro, acompanhando-o na corrida tendo como objectivo excluírem-se das frontes dos bois seguidores.

Chegada a casa e tendo Anacleta a sua água para o cântaro vazada tornou-se imprudente quanto à forma de abrir a porta da capoeira, fugindo-lhe para os campos todas as cinquenta e nove galinhas que, em grande algazarra, se dirigiram para os mais variados sítios do interior da sua propriedade agrícola, cacarejando e largando penas por tudo quanto era sítio. Anacleta mantendo-se inerte tomou-se de dúvidas quanto à melhor acção a desenvolver para uma calamidade como aquela. Concluiu por fim ser melhor a captura isolada de cada uma das aves ao invés de uni-las em rebanho como se de ovelhas se tratassem, tendo, para isso, que perseguir ou capturar cada cacarejante guiando-a ou depositando-a em direcção à ou na capoeira. Socorrendo-se da vassoura que por ali estava objectivou a primeira galinha que defronte de si perfilava, servindo-se do referido instrumento para conduzi-la, correndo atrás de si, ao local que a ela se destinava, à medida que vocalizava com o auxílio das suas capacidades vocais alguns sons que mantiveram na rota a fugidia ave. Escusado será dizer que correndo o percurso entre o ponto A (sendo este a localização inicial da galinha) e o ponto B (a capoeira) foram sendo afugentadas as restantes cinquenta e oito que tinham encontrado um ponto favorável para esgaravatar o solo, tentando a capturada correr para um qualquer lado excepto o correcto, defeito, aliás, corrigido pelo hábil manejo de vassoura que Anacleta demonstrava.

Chegada a casa e tendo Asdrubalina a sua água para o cântaro vazada tornou-se de sentidos vigilantes qual mocho no topo de uma árvore, ao perceber que a despensa onde guarda os queijos que confecciona tinha sido alvo de cobiça por parte de um qualquer ser vivo indefinível. Olhando fincadamente para o interior da mencionada divisão do seu lar, cuidou para abater com o auxílio de uma saca de batatas meia cheia, qualquer alvo que se movesse e que buscasse esconderijo num qualquer canto obscuro. Colocou-se igualmente em silêncio, fazendo uso da exclusão do seu sistema respiratório, para que pudesse auferir de qualquer ruído impróprio ao seu compartimento para arrumação de víveres lácteos. De saca de batatas sobre o ombro direito e pegando-lhe na extremidade com ambas as mãos, dispôs-se em posição de ataque guardando-se vigilante a qualquer movimento ou rumor detectado. Dir-se-ia que Asdrubalina havia sido transformada em pedra de tão gélida expressão lhe cobrir o corpo e nem mesmo a saca parecia viva, tendo-lhe sido passada, por contaminação, a expressão lítica demonstrada pela mulher. Notava-se igualmente a extracção do continum temporal a que ficou sujeita a despensa de queijos logo que foi activado aquele momento de tensão.

Chegada a casa e tendo Gualdina a sua água para o cântaro vazada tornou-se de pressas acelaradas ao descobrir alguns exemplares do seu extenso rebanho ovino plantados nos compartimentos de sua casa. De braços pelo ar, agitando as variadas moléculas de oxigénio e azoto, Gualdina tropeçava nela própria ao tentar expelir cada uma das ovelhas que haviam já executado variadas alterações em alguns dos móveis presentes. Tão gigantesca era a algazarra levantada que vizinhos houveram que acorrerram pensando encontrar a citada mulher tombada por alguma calamidade se ter acometido do seu lar. Tal não foi o espanto de todos eles ao presenciar Gualdina a perseguir as ovelhas e as ovelhas em perseguição a Gualdina e do espanto inicial pouco restou quando o grupo ovino investiu toda a sua energia contra os humanos entretanto chegados. Com o sistema de fuga activado em cada um dos vizinhos, foram-se trocando palavras objectivando salvar Gualdina do ponto em que se encontrava, estando esta em confronto aberto com um pequeno grupo de ovelhas.

Chegada a casa e tendo Guinermina a sua água para o cântaro vazada tornou-se constatada, devido à sua natureza organizada, esquemática e sistematizada, estarem os potes de compota por ela armazenados de arrumação dissolvida por causas ainda estranhas. Forçada a questionar-se sobre tão visível alteração, lembrou-se de variadíssimas maneiras através das quais pudesse ser atingida tão ingrata formação de potes de compota, excluindo-se de qualquer uma dessas visto se ter como modelo de disposição conveniente das coisas para qualquer ser vivo falante ou não. Tornado acto este o de Guinermina normal o de se isentar de situações de dispersão por desarranjo, procurou culpados que a tivessem substituído em tão vil acção, iniciando uma demanda com esse objectivo em mente. Saindo abruptamente de casa, não sem antes abrir a porta seguido de um encerramento violento da mesma perfazendo tal estrondo que até o sino da igreja oscilou com tão vigorosa deslocação de ar, organizou um tenaz inquérito a todos os seres vivos dos falantes e dos outros objectivando apontar o culpado.

Chegada a casa e tendo Elierta a sua água para o cântaro vazada tornou-se forreta ao perceber que o conteúdo da sua conta bancária atravessava um momento de depressão. Visivelmente aterrada pelo regime dietético auferido pelas suas poupanças, fez de súbito aumentar o preço de venda das mercadorias agrícolas, géneros alimentícios de que Elierta era detentora, obtendo mesmo o monopólio desse sector. Indo ao mercado poder-se-ia observar todo o espólio alimentar apresentado nas diversas bancas, todo ele provindo das hortas de Elierta. Tal não foi o espanto de todos quando foi dado conta que os valores a pagar por cada batata, cebola ou outros alimentos, subira consideravelmente desde o dia anterior. Ainda para mais, andando Elierta de balde na mão servindo este para pressionar os diversos habitantes a oferecer qualquer dádiva monetária por ser ela a fornecedora dos comes e dos bebes da aldeia, situação que reclama ser de pleno direito já que é detentora do argumento de que pela ausência da produção alimentícia das suas hortas e demais fornecimento gádico, nada teria a aldeia para se alimentar, entrando em época de fome.

Chegada a casa e tendo Silávia a sua água para o cântaro vazada tornou-se ausente devido à inundação vinícola que grassava na sua adega. Não fosse um seu vizinho avisá-la que decorria uma enchente a partir dos seus barris de vinho, Silávia tinha permanecido nos costumeiros afazeres da vida rural. E tal foi a enxurrada que, da sua adega, o vinho percorreu as variadas ruas da aldeia indo visitar os lares de alguns dos seus habitantes alagando alcoolicamente tudo quanto se lhe atravessava no caminho. De súbito, os proprietários dessas habitações saíram à rua pretendendo tomar conhecimento sobre o motivo que levou a que a aldeia fosse alagada de tão rara forma de alagamento, sendo esta não de água mas de vinho. E tanto era esse vinho que ameaçava mesmo afogar um habitante desprevenido que ocupava o seu posto usual à entrada da taberna, local em que se colocava após se tornar a si próprio alvo de descomunal bebedeira contraída no interior do dito estabelecimento de bebes. Pensou esse habitante chegar ao paraíso ao verificar tamanha ocorrência em forma do seu combustível predilecto quando se encontrava ele num cambaleante e oscilante sentar numa saliência da parede que ali existia.

Chegada a casa e tendo Lumília a sua água para o cântaro vazada tornou-se fugidia ao constatar que o seu peru se servia da janela com o intuito de perscrutar o interior da sua casa. Ao ver tão estranha carantonha espreitando para si do lado de fora do vidro, Lumília decidiu-se por iniciar fastidiosa corrida tendo como propósito a fuga do peru por ter este surgido à sua janela levando, com isso, a referida mulher ao limiar do susto. Tornando-se a mesma mulher indecisa quanto ao lado para onde se escoar, tocava violentamente nos variados objectos e móveis que constituíam o recheio de sua casa. O peru, fazendo-se atónito quanto à cena que percorria em frente de si, mas do lado de lá do vidro, não hesitou em vocalizar alguns sons, não se percebendo estes se de contentamento, se de aviso ou se de alguma outra coisa. Ouvindo a sua emissão de voz e não o vendo, Lumília tornou-se ainda mais fugidia pensando estar a ave no seu encalço e aproximando-se cada vez mais mas, apesar disso, a mulher foi tentando descobrir um ponto de exclusão para se colocar no exterior de sua casa já que se encontrava em fuga aterrorizada do exteriorizado pássaro, pensando esta achar-se esse no interior.

Chegada a casa e tendo Lifórnia a sua água para o cântaro vazada tornou-se perseguidora ao ver o seu bode a seguir o seu pato a seguir o seu frango. Ainda que tal perseguição se tenha originado por causas desconhecidas para Lifórnia mas talvez menos desconhecidas para os restantes elementos, a mulher não hesitou em colocar-se em posição de seguidora tendo o bode como primeiro alvo a ser capturado. Teria sido um pouco mais fácil se os animais seguissem um processo de fuga uns dos outros assente numa trajectória mais ou menos definida, mas tendo pela frente o mais irregular dos percursos de escape e não sabendo de antemão qual seria a trajectória a seguir, Lifórnia teve alguma dificuldade em perceber qual a melhor maneira de proceder para poder dar por concluída tão disparatada fuga. Por isso, Lifórnia parou um pouco para analisar a situação e concluiu que quem cria o trajecto é o frango já que é o primeiro da fila e para onde ele curva o pato segue-o imitando-o e logo depois o bode que, seguindo o pato, o imita na curva que este imitou do frango. Ao descobrir tal estratagema, Lifórnia colocou-se num ponto em que conseguisse barrar o caminho ao frango pensando que, com isso, iria pôr fim à correria que se mostrava sobre as suas plantações de vegetação alimentar. Tendo o frango percebido o ardil montado pela mulher, escusou-se de se adiantar mais no terreno fazendo já ali uma apertada curva para a sua direita, esta, por sua vez, copiada pelo pato e pelo bode.

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