27/03/09

O menino colecciona borbulhas

O menino colecciona borbulhas desde a mais tenra idade. Não que ele tenha largado para longe a idade em que a infância é mais tenra, apenas assim informei para que se tome conhecimento que desde há já um certo número de anos, a criança a que se faz alusão faz um ajuntamento obsessivo dos objectos atrás indicados.

Uma das assoalhadas da sua casa é inteiramente dedicada à colecção. Em todas as suas quatro paredes há estantes que se elevam até ao tecto com mais prateleiras do que aquelas que seria de supor, nas quais se comprimem milhares de pequenas caixas de plástico que contêm, cada uma, uma borbulha. Essas borbulhas arranca-as com as suas unhas o menino a ele próprio ou a outras pessoas e são colhidas na fase em que se tornam de maior tamanho. Sabendo já, por via da experiência adquirida, que tamanho é esse, o menino limita-se a esperar que cresça até ao momento de lhe espetar as unhas e juntá-la à colecção.

No bairro onde vive o menino habita um grupo de outros meninos que inveja a vastíssima colecção do seu colega colector de borbulhas. Colega porque também este grupo, que actua em conjunto e não de forma isolada como o menino, se dedica à extracção de borbulhas humanas, mas de maneira alguma a colecção do grupo se compara à do menino, é de uma pequenez absoluta quando a ela comparada. Ora, o grupo de meninos também anseia por uma vasta colecção mas de maneira menos complexa. O roubo pareceu-lhes uma boa solução. Precavendo-se contra monstruosidades provindas de larápios de passagem ou dos outros, o menino que colecciona borbulhas construiu um sistema de auto-defesa de capacidades supremas e devastadoras. Aproximava-se o grupo de meninos intentando o furto e soltava-se, de algum lugar, uma gigantesca borbulha de fabricação artificial que se destinava a aniquilar qualquer gatuno que a distâncias perigosamente próximas se aproximasse. O grupo de meninos foi atingido pela borbulha gigante deixando-os num estado lastimoso e a requerer cuidados médicos.

A borbulha gigante foi encomendada pelo menino que colecciona borbulhas ao seu tio, ele próprio um outro coleccionador de borbulhas, mas de quantidades substancialmente menores que o sobrinho. O tio é o dono da fábrica onde se produzem borbulhas artificiais que são um grande sucesso de mercado, já que cada ser vivente poderá padecer voluntariamente de uma ou de mais borbulhas em uma ou em várias partes do corpo. E as borbulhas agradam e satisfazem vários gostos e necessidades, umas são maiores e outras menores, umas mais inchadas e outras menos, umas em tons mais vermelhos outras nem tanto. É possível exibirmos borbulhas em nós próprios exactamente como queremos que elas se apresentem.

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