03/04/09

A reunião da administração

Entra o Administrador na sala de reuniões e, virando-se de feições frontais para o Presidente diz-lhe Digo-lhe Senhor Presidente que estou com demasiado sono para assistir a esta reunião, ao que lhe responde o Presidente Ora Senhor Administrador, então porque me disse que vinha? ao que lhe responde o Administrador Porque sim, porque achei que fosse melhor ao que afirma o Presidente A fabricação de pessoas é efectuada no interior de um elevador da baixa da cidade o que faz o Administrador soltar as palavras E é isso que me quer dizer, Senhor Presidente? Fez-me vir até à sede da empresa para me falar sobre a fabricação das pessoas? Você é um idiota, caro presidente! que originam E você, Senhor Administrador, é um parvalhão! E quando você me diz que os papeis que trago são desnecessários porque estão mal organizados? E atreve-se você a chamar-me idiota? afirmando seguidamente o Administrador Quero dormir! Quero dormir e só vejo papéis da reunião da administração e apetece-me escrever apenas a letra A, apetece-me escrever cem As uns após os outros AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA.

Entra o Contabilista que trás uns papéis na mão, aliás, são mais do que uns papéis, são papéis, dossiers e várias outras coisas algumas delas sem uso absolutamente nenhum, tal como uma esferográfica sem tinta e que é utilizada para escrever. O Contabilista senta-se no seu lugar à mesa e coloca a sua máscara de cabeça de galo declarando com firmeza EU SOU O CONTABILISTA! EU SOU O CONTABILISTA!

Inicia-se a reunião sendo o Presidente a dar essa ordem Vamos ao primeiro ponto da reunião: a tecla da letra O e a tecla da letra K dos nossos teclados QWERTY. Fizeram-me chegar bastantes queixas sobre o facto do posicionamento das referidas teclas não ser a mais aconselhável, já que quando escrevemos OK, a proximidade e o posicionamento dessas duas teclas origina uma cópula entre si. Calem-se todos apesar de estarem calados e sem emitir um único som mas calem-se calem-se e calem-se pois se não se calam não poderei discursar nem debater os pontos da reunião mas agora apetece-me discursar e não falar nos pontos da reunião porque se o fizer não poderei discursar e por isso não direi uma palavra excepto aquelas que guardarei para o discurso que efectuarei já a seguir a ter terminado esta frase que me parece não mais acabar porque me apetece prolongar esta frase da forma mais interminável possível e até sem utilizar sinais de pontuação como vírgulas ou pontos ou pontos e vírgulas Oh Senhor Presidente cale-se e comece a debater os pontos da reunião já que foi para isso que cá vim e não se esqueça que estou com muito sono EU SOU O CONTABILISTA EU SOU O CONTABILISTA.

Dizendo o Presidente Meus senhores, tenho uma declaração a fazer-lhes: hoje de manhã abri o meu frigorífico e de lá tirei um ovo que coloquei no chão e, em seguida, com o martelo, parti-lhe a casca com todas as minhas forças uma exposição de um acontecimento que abre motivo para que o Administrador declare Eu declaro que hoje de manhã dobrei o meu dedo indicador em direcção às costas da mão de forma a que a dor que daí advinha se tornasse insuportável. Pensei até em deslocar a articulação mas optei por não o fazer porque se assim fosse teria que perder algum tempo no hospital para me recolocarem a articulação no devido lugar o que me faria atrasar para esta reunião não faltando a do Contabilista Eu declaro que esta frase é arte. Eu declaro que esta frase não é arte.

É o momento de debater o segundo ponto da reunião antecipando-se novamente o Presidente em relação aos restantes convivas Vamos ao segundo ponto da reunião: o vinhateiro da vinha, homem de rude força, transporta vasos nas mãos (um em cada um) bateu à porta do Taberneiro ou do Homem da Taberna como também é chamado para que este seja avisado que estão as uvas prontas para serem e depois no andar de cima estava o vizinho que lhe disse vai comprar o vinho que já está pronto E vou onde? vai ali ao Homem da Taberna que lá há E quem lá mora? tu sabes quem lá mora por cima do Taberneiro, lá está a vizinha sempre com as suas batatas Porque dizes sempre com as suas batatas? porque não está com as cebolas viste-o ontem, o da vinha, o da rude força? contrapondo o Administrador com um avassalador Cabe-me referir, Senhor Presidente, que tudo o que acabou de dizer transporta em si o mais completo dos erros porque houve vários meios de transporte que fizeram uma curva. Seja como for, Senhor Presidente, tendo em atenção o que por si foi exposto, eu passo a palavra ao contabilista.

De posse do alguidar, o Contabilista coloca-o na sua cabeça como se de um elmo se tratasse. O presidente grita Inimigo à vista! Inimigo à vista! berreiro suficiente para que o Administrador se pusesse em fuga escondendo-se por trás da sua cadeira. Deixando-se estar oculto pela cadeira dá plena utilização à quantidade de sono que consigo transporta. O peso do crânio dobra-lhe perpendicularmente o pescoço em direcção ao solo enquanto a força gravítica tomba-lhe as pálpebras para baixo. De súbito solta-se o primeiro som respiratório que anuncia a chegada da dormida. Há uma coisa que gosto de fazer. Quando estou numa fila de trânsito numa auto-estrada gosto de apontar directamente com o dedo indicador da mão direita para os condutores dos outros carros que também estão nessa mesma fila. Fazer isso leva-me a atingir um estado de plenitude em êxtase. E também gosto que não apontem na minha direcção, que o outro condutor não aponte na minha direcção porque isso tornar-se-ia desagradável ver dois homens adultos a apontar um para o outro como quem aponta para alguma coisa como fazem as crianças e as crianças quando estão entre si às vezes a brincar mas principalmente quando querem que um adulto e talvez uma criança olhe e observe uma qualquer coisa que a primeira criança viu e achou piada ou estranho em outra pessoa. Estranho é também o alguidar que o Contabilista transporta na sua cabeça e que faz com q. Torna-se discreto quando o apontar para o condutor do lado, isto é, talvez seja isso mas se não, houve alturas em que pensei quais as compras que iria fazer no supermercado, nem eu sabia ou talvez também ouvi que sim, acho que sim que é isso. A lista de compras do supermercado e reparei que me tinha esquecido de lá colocar o alguidar e escrevi-o no fim da lista como se de um capítulo final se se tratasse.

A exclusão de esquinas

O restaurante fica na esquina que dá para o rio sendo esta a única esquina em todo o aglomerado populacional com visibilidade para o fluxo aquático porque, segundo uma lei publicada num dos transactos anos, transacto esse correspondendo a um transacto antigo de séculos, não é permitida a construção de esquinas ou de qualquer outra espécie de edifício nas proximidades do percurso fluvial, dado que era costumeiro nessa área de beira-rio, em tempo prévio à publicação da dita lei, haver coexistência entre assaltantes e assaltados movimentando-se os assaltantes através de oscilações parcial ou totalmente ocultas pelas esquinas e outros edifícios. Com tão normal situação a de roubo por extorsão ou de outra qualidade criminal de proporções diferentes, foi ordenada a demolição de todas as esquinas e restantes edifícios das proximidades do rio, tornando-se também proibitiva qualquer construção edifical na área em questão. Escusado será narrar que os criminosos executaram uma pequena migração de maneira a que pudessem continuar o exercício da sua actividade remuneratória, transferindo os seus serviços para não muito longe da zona demolida. Dado que os criminosos levam a efeito o seu desempenho numa determinada área da localidade, esse território viu-se forçado a renovar os nomes das ruas. Temos então a Rua do Crime Monetário, a Rua dos Serial Killers, a Rua da Corrupção, a Rua dos Assassinos ou a Rua dos Assaltantes a Estabelecimentos Comerciais, nomeando apenas algumas delas. Na prática, isto quer dizer que se um transeunte desejar ter o seu porta-moedas livrado de peso excessivo, deverá permitir-se trespassar a Rua do Crime Monetário, já que é lá que se reúnem os especializados no roubo de bens sob a forma de notas e moedas. Se for desejo de um qualquer cidadão organizar um assalto a um estabelecimento comercial (do próprio ou da concorrência) basta que se dirija à Rua dos Assaltantes a Estabelecimentos Comerciais, tendo em conta que é lá que têm sede os vários grupos dedicados a este tipo de crime. Para quem deseje ser assassinado necessita apenas de rumar à Rua dos Assassinos e aí escolher um assassino que lhe agrade. Porém, se esse mesmo desejoso de se assassinar a si próprio preferir o serviço executado por um serial killer terá que se dirigir à Rua dos Serial Killers. Para os aliciados em crimes de corrupção bastará apenas que se coloque na Rua da Corrupção, sendo lá a sede de diversas organizações ou particulares dedicados a este tipo de crime.

Meios de transporte que fizeram uma curva

Era uma embarcação de rio que fazia uma curva em 3000 a.C. E assim começa a história do menino que fazia uma curva a tudo quanto podia ser curvado. Contava-se naquele aglomerado populacional que morava por lá um menino que andava sempre às curvas e que era incapaz de fazer um trajecto em linha recta, mesmo quando o percurso a isso pedia. Ouvido isto, vários sacerdotes rumaram a esse aglomerado populacional. Era uma carroça que fazia uma curva em 1490. E assim começa a história do menino que fazia uma curva a tudo quanto podia ser curvado. Contava-se naquela cidade que morava por lá um menino que andava sempre às curvas e que era incapaz de fazer um trajecto em linha recta, mesmo quando o percurso a isso pedia. Ouvido isto, vários homens do Renascimento rumaram a essa cidade. Era um balão que fazia uma curva em 1782. E assim começa a história do menino que fazia uma curva a tudo quanto podia ser curvado. Era um comboio a vapor que fazia uma curva em 1860. E assim começa a história do menino que fazia uma curva a tudo quanto podia ser curvado. Era um automóvel de combustão interna que fazia uma curva em 1890. E assim começa a história do menino que fazia uma curva a tudo quanto podia ser curvado. Era um avião com propulsão a hélice que fazia uma curva em 1905. E assim começa a história do menino que fazia uma curva a tudo quanto podia ser curvado. Era um comboio eléctrico que fazia uma curva em 1920. E assim começa a história do menino que fazia uma curva a tudo quanto podia ser curvado. Era um dirigível que fazia uma curva em 1930. E assim começa a história do menino que fazia uma curva a tudo quanto podia ser curvado. Era um avião a jacto que fazia uma curva em 1950. E assim começa a história do menino que fazia uma curva a tudo quanto podia ser curvado. Era um submarino que fazia uma curva em 1952. E assim começa a história do menino que fazia uma curva a tudo quanto podia ser curvado. Era um foguetão que fazia uma curva em 1976. E assim começa a história do menino que fazia uma curva a tudo quanto podia ser curvado. Era um space shuttle que fazia uma curva em 1982. E assim começa a história do menino que fazia uma curva a tudo quanto podia ser curvado. Lá na cidade contavam que andava sempre às curvas e que era incapaz de fazer uma recta. Mal saía de casa a primeira coisa que fazia era curvar para a direita apesar de o percurso que liga a entrada do seu lar até ao elevador ser constituído por uma recta e devido a esse mesmo caminho rectilíneo, o menino via-se constantemente obrigado a embater na parede servindo esta de ponto de apoio para a execução da sua próxima curva, desta vez para a esquerda, colidindo com a parede do lado oposto e de novo nova curva para a direita e outra para a esquerda até dar entrada no elevador, ligando este meio de transporte, através de uma recta, ao exterior do seu prédio. Já lá fora, o menino continuava às curvas, para a esquerda, para a direita, para a esquerda, para a direita. As curvas que o menino faz não são sempre iguais, são umas de ângulo mais fechado do que outras dependendo da superfície em que embate para permitir o desenvolvimento do percurso andante (tais como paredes, muros, árvores, candeeiros, pessoas, etc). Ouvido isto, vários investigadores de diversas áreas do conhecimento rumaram de imediato a essa localidade tendo como objectivo o estudo desse menino. Eram tantos que se tornaram em maior número do que os habitantes da cidade. Preparou-se uma sala especial de enormes proporções para este evento e completou-se esse lugar com cadeiras, uma quantidade imensa de cadeiras. Conversa-se e teoriza-se entre os investigadores. Uns dizem que é com toda a certeza por causa disto que o menino faz curvas, outras dizem com toda a certeza que é por causa daquilo e outros ainda dizem que é. Do canto da sala levanta-se uma voz que sonoramente se exala a partir de um homem muito velho e que diz Eu concluo que o menino faz curvas porque está impossibilitado de fazer rectas. E todos ficaram boquiabertos com tão aparatosa explicação. Todos os investigadores se levantam das cadeiras em que se sentam e começam a deambular às curvas, todos a colidir com tudo e todos a colidir uns com os outros. Todos curvam os seus percursos. Tenta-se com isto experienciar a deslocação espacial do menino que faz curvas. Durante exactamente uma hora milhares de cientistas curvam. Pensa-se que a Teoria da Deriva não é aplicável num caso destes.